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Nº 113 | Ano 12 | Mai 2007
CULTURA

Por José Weis

‘Você sabia que aqui existe uma faculdade de teatro?’ – A frase que está afixada em uma faixa na fachada do prédio do Departamento de Artes Dramáticas da Ufrgs (DAD) é um misto de apelo, denúncia e brava resistência, tal qual a história de se tentar aprender e fazer teatro neste país. E Porto Alegre tem tudo para celebrar esta arte em uma data oportuna. Em 2007, o DAD completa 50 anos. Criado por resolução do Conselho Universitário, o Curso de Arte Dramática funcionou, inicialmente, junto à Faculdade de Filosofia e tinha como finalidade a formação de atores. Passadas cinco décadas, há muito que se falar sobre o DAD da Ufrgs. Há uma programação sendo preparada para a celebração da efeméride, que inclui encenações, leituras dramáticas e ensaios abertos.

Início de uma tarde de segunda-feira de abril, no CAD, Centro Acadêmico Dionísio, do DAD-Ufrgs. O clima é semelhante a qualquer espaço ocupado por estudantes antenados com seu curso e a vida lá fora. É assim que se pode definir atitudes e pensamentos como os de Felipe Vieira De Galisteo, que pretende formar-se em direção teatral até o final do ano. Felipe lembra, no entanto, que esta mobilização em torno do CAD é mais ou menos recente. “Até bem pouco tempo, não havia um envolvimento dos alunos com o Centro Acadêmico”, lembra.

Este interesse maior sobre atividades acadêmicas, incluindo o próprio centro do corpo discente, vem junto com a criação do Mestrado dentro do Curso de Arte Dramática, uma novidade que empolgou a direção – que providenciou algumas ligeiras melhorias no prédio – e também dos professores, segundo DiMachado (o aluno Diego Machado que já escolheu seu nome artístico, faz o curso de interpretação, e é outro membro do CAD). Outro fator que contribuiu para esta retomada de uma consciência acadêmica por parte dos alunos seria a reforma do currículo do curso do DAD.

Porém, questionam os alunos, com a reforma de currículo e a criação do curso de mestrado é mais do que urgente a ampliação dos espaços físicos do prédio. “Em salas de aulas de teatro, que são muito pequenas, há um professor para cada 20 alunos”, atesta Felipe. Isso, segundo o acadêmico, dificulta o aprendizado como um todo.

Com a limitação de espaços, é necessário recorrer a alternativas. “Às vezes, se ensaia até na Redenção (o Parque Farroupilha), mas não por criatividade, se ensaia por falta de escolha”, confirma DiMachado.

Existe no Departamento de Arte Dramática uma novela que vem em cartaz há muito tempo: a busca por um novo local para o curso. A mais recente alternativa é o Instituto de Biociências, que abrigou por decênios o Curso de Medicina da Ufrgs (localizado na Av. João Pessoa, esquina com a Sarmento Leite, em frente a um viaduto).

Para os dois acadêmicos, esta seria uma ótima alternativa. Para começar, o aproveitamento do prédio pela sua disposição. DiMachado dá como exemplo a comparação entre os prédios, o do Instituto de Arte da Ufrgs é vertical, o da Medicina é horizontal, o que facilitaria uma maior integração com o curso como um todo, avaliam. “A gente vai conquistar este prédio”, anima-se DiMachado.

Superando as precariedades em nome da arte

Porém, nem só de falta de espaço se alimentam as reivindicações dos estudantes de teatro. Há carências de professores em disciplinas fundamentais para a formação de um ator ou diretor teatral. Áreas como iluminação, cenografia, maquiagem e figurino há muito não contam com concursos para professores específicos. “Os que existem são professores contratados, e não há perspectivas de novos concursos”, avisa Felipe Vieira De Galisteo.

DiMachado reforça que estão sendo priorizadas apenas as áreas de interpretação e direção. De Galisteo vai além. Para o acadêmico, o curso não prepara o aluno para o mercado de trabalho. “Falta um ensino de produção para que se possa administrar melhor no mercado de trabalho”, pontua.

Felipe também observa que as disciplinas não são integradas, não há um ensino, por exemplo, de filosofia da arte. Tanto para ele quanto para seu colega de diretório acadêmico, o curso do DAD está muito mais para informativo do que para formativo. Há algumas lacunas que impedem uma formação mais completa para o futuro profissional. “Tem que se buscar por si mesmo”, resume.

Um reflexo da realidade do ensino

Para a professora e pesquisadora Mirna Sprietzer, os questio-namentos dos alunos são justificados, mas tendem a ser contemplados. “A falta de professores e a reposição de vagas geradas por aposentadorias são uma realidade em todas as universidades públicas”, argumenta.

Mirna também é a Coordenadora do Núcleo de peças radiofônicas de Porto Alegre e diz que a situação do curso de teatro da Universidade Federal é parte de tudo, há uma disputa acirrada por recursos para melhorias e ampliações. “No DAD não é diferente. É nosso desejo conquistar vagas para a realização de novos concursos”, contextualiza.

Resumindo: pouca verba para muita demanda. “Não depende da nossa vontade, mas sim de uma disputa dentro do MEC e das próprias Universidades”, conclui Mirna.

Quanto a Mestrado, a professora avalia que é uma conquista importante para todos do Departamento de Arte Dramática. “Já é uma realidade. Significa muito para todos: professores, alunos e ex-alunos do DAD”, anima-se.

Mirna Sprietzer diz que o Mestrado vai contribuir no debate sobre o teatro contemporâneo, incidindo sobre sua reflexão e participando de sua produção.

Teatro na vida real

Quarta-feira de abril, sol a pino, em frente ao prédio do DAD, na Avenida Salgado Filho, o público já se concentra, senhas na mão – na verdade, são pedaços de papel com fragmentos do texto a ser encenado. De repente, os atores começam a apresentação em meio ao público, antes mesmo de todos entrarem na Sala Alziro Azevedo. É a encenação de “Ânsia”, da autora inglesa Sarah Kane. Em cena, Paulo Brasil e Cibele Donato, dirigidos por Júlia Rodrigues, todos acadêmicos. É o projeto Teatro, Pesquisa e Extensão (TPE) do DAD, em sua edição de 2007, que se estenderá até novembro. São duas sessões, às 12h30 e às 19h30, às quartas-feiras.

O projeto existe desde 2003. O objetivo é proporcionar à comunidade acadêmica e ao público o acesso ao teatro. São horários alternativos e com entrada franca. Somente em 2006, de acordo com o Jornal da Universidade (da Ufrgs), 3.200 pessoas prestigiaram a Mostra Anual Universitária. Mariana Mantovani, aluna que faz parte do projeto TPE, diz que é uma oportunidade real tanto para o público quanto para os estudantes de teatro. “Há a distribuição de uma ficha de avaliação que é devolvida no final do espetáculo”, detalha.

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