Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 113 | Ano 12 | Mai 2007
ENTREVISTA | ROGER CHARTIER

Por Jacira Cabral

No próximo dia 22 de maio estará em Porto Alegre um dos mais reconhecidos historiadores da atualidade, Roger Chartier. Ele participará do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, promovido pela Copesul. Juntamente com a historiadora brasileira Sandra Pesavento, abordará o tema História: a leitura do tempo. Chartier é diretor na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, e professor especializado em história das práticas culturais e história da leitura. Com obras publicadas em todo o mundo, o pensador francês representa uma inovação tanto nos estudos de história cultural, em que abriu novas possibilidades teóricas, como também nas maneiras de ler e fazer história. Sua mais recente obra publicada em português pela Unesp é Inscrever & apagar: cultura escrita e literatura, na qual o autor nos faz pensar se tudo o que se escreve merece ficar para a posteridade, deve ser, em parte, reescrito, ou, muitas vezes, pode ser apagado e cair no limbo do esquecimento? Chartier, que já havia concedido entrevista ao Extra Classe em 2003, quando esteve no Brasil, respondeu as nossas perguntas via-email, de sua residência nas proximidades de Paris, na França.

Extra Classe – Segundo o senhor, História e Literatura são formas de acessar a realidade. Poderia nos explicar esta sua abordagem?
Roger Chartier
– Em cada sociedade, as relações com o passado são múltiplas e freqüentemente conflitantes. Localizadas dentro da memória, individual ou coletiva, a literatura forma representações divididas e a história é entendida como conhecimento científico. Cada qual estabelece uma relação “verdadeira” com a realidade do passado, mas movimentando modalidades que devem estar claramente diferenciadas. Por exemplo, tanto nas obras de Shakespeare ou Lope de Vega como nos romances dos séculos XIX e XX, a força da literatura não está na comprovação de sua verdade, mas à energia que é transmitida pela obra e que produz, em seus espectadores ou leitores, novas maneiras de perceber ou pensar. A tarefa dos histo-riadores é, simultaneamente, reconhecer a força de tais representações e propor, a partir de seus critérios de trabalho, um conhecimento do passado fundamentado na interpretação crítica e científica dos documentos.

EC – Como o Senhor chegou ao conceito de representação?
Chartier
– A partir de uma dupla crítica: a primeira se refere à tradição da história social esquecendo que a construção das identidades não se reduz apenas aos critérios objetivos da riqueza, das ocupações, da propriedade, mas também das lutas que apostam nas divisões, classificações, hierar-quias do mundo social; a outra está centrada na noção de uma “mentalidade” demasiado homogênea e rigída, enquanto o conceito de representação permite definir claramente, para cada grupo social ou classe, as representações coletivas que acrescem às estruturas do mundo social aos indivíduos, e à construção dos comportamentos e hábitos encarregados de mostrar uma identidade recuperada. Assim, esse conceito em obras como as de Pierre Bourdieu ou Louis Marin consegue unir, estreitamente, posições e trajetórias sociais, categorias mentais e práticas.

EC – O que os homens lêem? Que importância tem esta questão para a história?
Chartier
– Desde a invenção da escrita, qualquer que seja, a produção dos textos assegurou a transmissão dos conhecimentos, a organização das práticas administrativas ou comerciais, a difusão dos mitos, dos textos sagrados e das ficções. Daí a importância da leitura e de sua história. Mas não devemos esquecer, por um lado, que a “leitura” dos textos não foi e não é a única relação que se estabelece com o documento que pode servir de propósito para outros fins, e em cada sociedade (mas em proporções variáveis) a cultura escrita sempre se relaciona com diversas formas da expressão verbal, com as imagens e a proximidade dos comportamentos. Devemos resistir à tentação de uma projeção retrospectiva de nossa própria experiência como homem ou mulher do século XXI e como intelectuais e também evitar pensar que os livros e sua leitura desempenharam sempre o mesmo papel.

EC – A nova forma de enfocar a História modificou o conceito de “documento” histórico, ampliando-o a outras esferas. Quais são as novas ferramentas do historiador?
Chartier
– Podemos pensar nos que se constituem os objetos de uma aproximação à História Cultural. Para mim, a História Cultural abarca o que dissemos, mas se podem utilizar outras categorias. Há uma definição da sociologia que poderia também englobar esta vinculação entre textos, suportes e práticas, o que McKenzie chamava de Sociologia dos Textos, não importando a categoria. Mas o projeto intelectual importante é que, a partir deste momento ,os objetos dos quais podemos nos apoderar são textos canônicos ou não, obras clássicas ou sem méritos, mas também a produção iconográfica em todas suas formas, inclusive, caso seja possível reconstituí-la, a circulação da música, do canto e de todas as formas que se remetem à palavra viva. São objetos legítimos, fundamentais e articulados, poderíamos dizer, da História Cultural. E, para se aproximar destes objetos, existem os documentos, que também pertencem a todas essas ordens, inclusive os objetos materiais deixados pelo passado ou os espaços existenciais encontrados numa cidade ou em outros espaços como grandes casas, castelos, etc. E deste modo, o desafio essencial seria, por um lado, evitar uma leitura das obras estéticas como documentos, isto é, como se refletissem imediatamente uma realidade social – que foi uma tentação dos historiadores ao reduzir a obra literária ou a obra iconográfica a seu conteúdo de documento –, que é um grande erro, porque cada obra foi concebida com regras, referências, modelos, tentativas que a governam. Assim, eu gosto de dizer que devemos nos acercar à prática da representação para poder dizer algo da representação das práticas. Por outro lado, há também a possibilidade, caso não se reduzam as obras ao estatuto de documento, de mobilizar os documentos tradicionais ou novos da história para nos aproximar deste mistério que é a apropriação, a construção do sentido de comunidades de leitores em frente a obras, quaisquer que sejam. E isso me parece um jogo entre obras e documentos – evitando a redução de um a outro – que pode definir este tipo de trabalho histórico.

EC – Em que medida a literatura é fonte para o historiador?
Chartier
– A literatura é, fundamentalmente, fonte de si mesma. Quero dizer que os historiadores não devem reduzir os textos literários a regramentos de “documentos”. O importante é entender como a criação estética se apropria dos objetos, das práticas ou dos códigos de sua época para transformá-los em razões literárias. É este tipo de leitura que proponho em meu último livro (traduzido para o português pela Unesp), com relação a algumas obras literárias, onde procuro mostrar como certos textos ou fragmentos de obras (capítulos de Don Quixote, uma comédia de Goldoni, outra de Ben Jonson, dois textos de Diderot) se apropriaram da cultura escrita de seu tempo para conduzir Don Quixote por caminhos impressos, utilizar a metáfora que assinala os textos como tecidos, criticar a aparição dos primeiros jornais ou descrever as transformações do gênero da ficção, as práticas de leitura e a forma de propriedade e publicação dos textos.

EC – Aproveitando as palavras da historiadora Sandra Pesavento: “No momento em que a compreensão do passado é vista como menos necessária e que o presente parece se bastar, a história deve reencontrar seu vigor de disciplina crítica abrindo-se a novas questões e forjando novos instrumentos de compreensão”. Qual o atual papel do historiador?
Chartier
– Comungo do diagnóstico de minha colega e amiga Sandra Pesavento. Em nossa socie-dade, o presente se apropria tanto do passado, transformando-o em memória, quanto do futuro, considerado como já previsto em promessas ou em desastres do mundo contemporâneo. François Hartog retomou a noção de “presentismo” para traduzir esta urgência e tirania do presente. Assim, a tarefa do historiador é recordar que este presente todo-poderoso está alicer-çado em milhares de heranças, sedimentadas e contraditórias, e que cada pessoa é um ser histórico que incorporou várias histórias, desde a mais recente e individual até a mais antiga e coletiva. É a única possibilidade para que os indivíduos, as instituições e a sociedade inteira sejam mais conscientes do que são e possam decidir e operar com menos cegueira.

EC – Diante das incertezas que povoam o terreno da História, qual é o saldo positivo que podemos abstrair nesta era da dúvida?
Chartier
– Como escreveu Carlo Ginzburg, devemos resistir à tentação ascética que se radica no pós-modernismo, em um retorno a Nietzsche e à idéia de que o discurso é incapaz de dar acesso à realidade a que se refere. Aplicada à história esta perspectiva recusa à possibilidade de uma forma própria de conhecimento histórico e afirma que não há critérios, a não ser o estético, para diferenciar discursos e historiadores. Não concordo com este entendimento. É certo que a História e a Literatura compartilham figuras retóricas, estruturas narrativas e repertórios metafóricos. Mas a História é também, ou melhor dizendo, é sobretudo, uma investigação que constrói seu objeto, transforma os arquivos em documentos submetidos a uma aproximação crítica, escolhe modelos de compreensão e de prova e submete suas interpretações aos controles da comunidade científica. Todas estas operações são próprias do ofício do historiador e buscam uma apropriação do passado diferentemente das criações literárias ou das recordações da memória.

EC – O mundo eletrônico é um meio privilegiado para observar certas comunidades culturais e suas práticas? É um campo futuro de estudo?
Chartier
– Sim, mas na condição de um acordo, e me parece que o texto eletrônico ao contrário do que vemos com os rascunhos das escrituras ou com as impressões de mudanças tem como uma de suas características o fato de não se arquivar por si mesmo, precisa um esforço para sua conservação, senão é um texto do efêmero, do móvel, do momento. Daí presumo uma dificuldade para pensar o que é um arquivo eletrônico, um arquivo de textos eletrônicos. Parece-me que a reflexão está suficientemente desenvolvida no mundo dos arquivos, das bibliotecas, dos pesquisadores ou dos usuários relacionados a isto, porque, como você dizia, a idéia de uma comunicação livre e submetida às exigências da economia mercantil e capitalista da multimídia conduz a pensar que esse mundo livre não deve estar fixado, vigiado, por qualquer instituição que seja. Vigilância e arquivo foram freqüen-temente vinculados. Desta maneira, há aqui um problema intelectual, teórico, ético, e as fontes que você propõe ao historiador da cultura do século XXI ou XXII não sei se realmente eles as encontrarão, porque a condição prévia é a reflexão sobre a conservação do texto eletrônico. Durante muito tempo, esta conservação era impossível porque os novos aparelhos eram incapazes de ler os formatos dos textos eletrônicos existentes. Suponho que agora existam técnicas que possam evitar esta dificuldade, mas o que falta é a reflexão, é a estratégia, finalmente, da conservação e é a constituição de arquivos, inclusive mais, de edifícios, de uma série de papéis, de dossiês, até de um arquivo eletrônico, isso sim é um grande desafio para o futuro.

* Tradução de Adriana P. Kabbas

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