Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 114 | Ano 12 | Jun 2007
WEISSHEIMER

Qual o ar que se respira hoje no Estado? O presidente do Tribunal de Justiça defende a pena de morte e a redução da maioridade penal para 14 anos. As reações são de apoio, silêncio constrangido ou elogio à coragem de expressar tais opiniões publicamente. A governadora faz do choque de gestão a idéia-força de seu governo, levando-a a todo o território gaúcho. E o que é espalhado junto com o choque é a ausência do Estado e de serviços públicos. O prefeito da capital é mais conhecido por uma música que fez na década de 1970 do que por suas realizações no cargo, sendo desconhecido por um terço da população da cidade (segundo pesquisa do Instituto Methodus). A principal autoridade da Cultura do Estado não produziu, até agora, um parágrafo sequer expondo o que pensa do assunto. E o presidente da Assembléia Legislativa orgulha-se em fazer o papel de garoto-propaganda de indústrias de celulose.

Na imprensa gaúcha, com as honrosas exceções de sempre, mediocridades são conduzidas ao “panteão” dos formadores de opinião. Na política e na mídia, iletrados e oportunistas de diferentes matizes freqüentam os holofotes com a soberba que molda os espíritos mais insalubres. Cronistas do próprio umbigo são alçados a alturas cujo ar não podem respirar. E a comunidade bem-pensante e bem de vida, considerada assim ao menos, assiste a tudo isso com um ruidoso silêncio, tratando de cuidar de seus interesses e ostentando um niilismo vulgar em relação à política, à cultura e à vida das pessoas que não tiveram o privilégio de nascer envolvidas no manto sagrado do capital e/ou de uma tradição que só sobrevive em amarelados papéis. A vulgaridade, aqui, anda de mãos dadas com um sentimento de inércia e indiferença que embala tal niilismo.

Assim, o Estado que já teve Simões Lopes Neto, Erico Verissimo, Júlio de Castilhos e Getúlio Vargas – apenas para citar quatro nomes de quem se pode divergir aqui e ali, mas que dificilmente se poderá qualificar como nulidades – hoje assiste a um desfile melancólico em seus principais postos de comando, na política, na economia, na imprensa e na cultura. Pessoas incapazes de produzir um texto sobre o que pensam do mundo em que vivem, mas capazes de atuar como despachantes de interesses particulares que não são aqueles da maioria da população. Multiplicam-se vozes a sepultar a famosa politização do povo gaúcho. O Rio Grande do Sul terá afundado em sua própria pretensão e arrogância, transformando-se em uma melancólica paródia de sua própria história? A defesa da morte, do choque, da ausência da palavra e da inércia tornaram-se os princípios motores da outrora orgulhosa Província de São Pedro?

Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra…

Nos últimos meses, coisas incríveis estão acontecendo no Estado. Na manhã gelada do dia 29 de maio, gaúchos e gaúchas acordaram com a notícia de que o Rio Grande do Sul teria, a partir daquele dia, uma embaixada em Brasília. Isso mesmo, uma embaixada. O único Estado da Federação a ter uma representação diplomática no Distrito Federal. Segundo a imprensa noticiou, teria partido da própria governadora Yeda Crusius (PSDB) a idéia de chamar de embaixada o escritório de representação do Rio Grande do Sul em Brasília. O prédio que já serviu como embaixada da França e do Canadá passou a sediar a representação gaúcha. Yeda Crusius inaugurou oficialmente a embaixada com uma solenidade oficial regada a vinhos da Serra e doces de Pelotas. Além disso, providenciou uma placa especial para a ocasião, onde aparece, orgulhoso, o letreiro em bronze: Embaixada do Rio Grande em Brasília.

O novo embaixador em “solo brasileiro”, Marcelo Cavalcante, esclareceu sua missão: representar os interesses do Estado junto ao Governo federal e até no contato com outros países. Ao comentar a notícia, ainda na manhã do dia 29 de maio, a jornalista Ana Amélia Lemos disse, preocupada, na rádio Gaúcha: “Espero que isso não contribua para alimentar as piadas sobre o nosso bairrismo”. Obviamente, o temor da jornalista acabou confirmando-se. Uma vez divulgada a notícia e a foto da placa da embaixada do Rio Grande do Sul em Brasília, as piadas começaram. Será preciso visto para ir a Santa Catarina? Quando forem a Brasília, os gaúchos poderão fazer compras no free-shop? Quando será aberta a embaixada do Brasil no Rio Grande do Sul? O Rio Grande do Sul passará a ser membro-pleno do Mercosul ou cogita estabelecer acordos bilaterais de comércio? O nosso país terá escolas bilíngües?

Acervo de luta contra a ditadura está ameaçado

Está circulado pela internet um texto de uma jornalista e historiadora residente em Porto Alegre denunciando a ameaça de fechamento do Acervo da Luta Contra a Ditadura, hoje instalado no Memorial do Rio Grande do Sul. Essa ameaça paira no ar já há algum tempo. Em fevereiro deste ano, a secretária estadual da Cultura, Mônica Leal, manifestou desejo de se livrar do material que está hoje sob a responsabilidade do Arquivo Histórico, ligado à pasta da Cultura. Segundo ela declarou à imprensa na época, o material é “valioso para o movimento de direitos humanos” e deveria estar em outro lugar. Há a possibilidade de esse material ser desmembrado em três e distribuído entre outras secretarias. A preocupação é que parte desse material perca-se neste processo, pois muitos documentos ainda não foram catalogados e investigados adequadamente.

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