Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 115| Ano 12 | Jul 2007
ENTREVISTA | CHARLES MELMAN

Por Jacira Cabral da Silveira

Com olhar sereno e atencioso e voz pausada, o psicanalista francês Charles Melman falou à reportagem do Extra Classe em duas oportunidades. Primeiro no Salão de Atos da UFRGS e depois no hotel onde se hospedou no mês de maio, trazendo na bagagem sua recente publicação: Retorno a Schreber, pela editora CMC. Sua visita ao Estado se deve à participação em uma etapa do evento Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre – Melman também colaborou com o Seminário Internacional O futuro da autonomia – Uma sociedade de indivíduos e com o Seminário Como alguém se torna paranóico? De Schreber a nossos dias, ambos promovidos pela Unisinos. Charles Melman, hoje com 76 anos, foi um dos principais colaboradores de Jacques Lacan de quem recebeu o convite para dirigir a revista Scilicet. Em 1982, fundou a Association Freudianne Internationale, reunindo analistas da Europa e das Américas e que, posteriormente, passou a ser denominada Associação Lacaniana Internacional. É também membro-fundador da Fondation Européene pour la Psychanalyse. Segundo Mario Fleig, membro da Association Lacanienne International, professor do Programa de Pós-graduação de Filosofia da Unisinos e um dos responsáveis pela vinda de Melman ao Brasil, a contribuição do especialista lacaniano é relevante para a Psicanálise atual tanto por seu trabalho clínico – seja na relação entre a Psiquiatria e a Psicanálise ou no trabalho cotidiano de psicanalista – quanto por intermédio de seu trabalho docente. “Por onde passa, Melman é identificado como um dos nomes mais importantes da psicanálise lacaniana nos dias de hoje”.

Extra Classe – Como analisar hoje em dia os laços parentais e a desestruturação de antigos paradigmas como a família, a igreja e a escola?
Charles Melman
– O destino desses jovens criados nessa nova relação, sem esses laços, tem um nome: liberdade. Mas essa liberdade é angustiante porque torna-se muito difícil para eles a tarefa de inventar sua própria vida. E é por isso que, inevitavelmente, se dá um retorno à autoridade. Ou seja, numerosos jovens buscam para si uma vocação, obrigações, en-gajamentos humanitários, entram em seitas, etc. O declínio da figura paterna começou no século XIX, com o choque de valores no início da economia industrial. Observem uma coisa: mesmo no século XVIII, nas comédias, já era possível notar a maneira com que os pais se tornavam tema e como os filhos se dedicavam a ridicularizá-los em sua autoridade, de modo que houvesse um choque entre os valores ligados à figura paterna, por exemplo, a honra, a dignidade e o respeito pela lei – os novos valores que apareciam, os da economia mercantil. Se tomarmos este maravilhoso romancista, Balzac, veremos que toda a sua obra consiste no declínio dos valores paternos e na ascensão de novos valores burgueses, ligados ao enriquecimento.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

EC – Só o jovem fica angustiado ante a liberdade?
Melman
– Há muito tempo nos questionamos a respeito deste animal que chamamos de homem. Para introduzir a questão, eu diria que o homem é o animal que nasce privado do saber, das regras e da sua conduta. Quando nascemos, nós somos um animalzinho e, como todo animalzinho quando nasce, encontramos em nós mesmos todas as regras de nossa conduta. Mas o animalzinho homem tem uma particularidade, ele vai ter que construir, inventar as regras de seu comportamento e essa liberdade o angustia. Ele sabe que se confronta em toda parte com outros homens com os quais vive o interdito e a questão dual do que é o justo e o injusto, do que é o bem e o que é o mal. Ou seja, ele não conhece as regras da sua conduta e deverá organizá-las ao redor de um interdito universal e, por outro lado, em torno da recusa do que se chamará para ele o mau e o injusto. Esse direito natural marca o comportamento humano sem haver tido qualquer legislador, nenhum profeta, ou autor deste direito natural e que se aplica ao todo da sociedade.

EC – A filosofia, a psicanálise e a religião assumem alguma importância na realização desta humanidade?
Melman
– Não há ligação entre as três, suas referências, seus métodos, seus objetivos são completamente diferentes. A psicanálise não é uma ideologia, nem uma crença. Por outro lado, ela também não é uma especulação intelectual, é um trabalho que cada um pode fazer ou não com um psicanalista, é uma prática. Existe uma voga popular da Filosofia, mas essa voga filosófica não pode reconduzir a conduta de forma. Nesse caso, a religião ganhará a parada.

EC – O senhor tem falado sobre a paranóia do homem contemporâneo.
Melman
– É o nosso desejo de ter razão e de ter a certeza da verdade. Quando se está certo de ter razão e de ter a verdade, nós somos quase tomados como vítimas da paranóia. O que é novo é: como nós não temos mais referenciais como, por exemplo, uma ideologia ou uma religião, cada um tenta ter razão com o seu próprio saber, o que resulta no risco da paranóia que cada um de nós enfrenta. É uma característica de nosso tempo. Essa situação perturba muito o ensino. Hoje os estudantes não querem ser perturbados no saber que eles têm. Eles consideram o ensino como uma intrusão abusiva. Freqüentemente o paranóico é um autodidata.

EC – Existe saída para esta paranóia?
Melman
– O único modo de se sarar da paranóia é muito desagradável, consiste em fazer-se apanhar no sentido real. Acontece, por exemplo, quando um povo se faz apanhar e isso o cura. Isto não se constitui em um novo desafio para os psicanalistas, pois o paranóico raramente procura o psicanalista. Ele está sempre muito contente com sua situação. Ele está sempre seguro de si mesmo.

EC – Outro tema que o senhor aborda é a autonomia.
Melman
– A vida social deixou de ser para nós um prazer – o que é uma lástima muito grande – ela deixou de ser um prazer porque em nossas relações sociais cada um quer afirmar a sua autonomia. Por exemplo, em um casal, hoje em dia, cada uma das partes quer afirmar sua autonomia. É uma disputa de egos, e como ego é homófono, trata-se de uma disputa entre iguais. É diferente de conflito. A autonomia consiste também em não depender de ninguém e, em particular, não depender de nenhum saber que me seja alheio. A autonomia é a idéia de que eu possuo tudo o que preciso para me orientar na vida, não preciso de ninguém, me basto. Sou o meu próprio chefe. Essa é a paranóia. A realização plena da autonomia coincide com a paranóia. E isso de se realizar de modo generalizado determinaria o fim da sociedade, do laço social com o outro. Etimologicamente, autonomia significa reconhecer apenas a sua própria lei. E esse é o caso de muitas pessoas hoje em dia.

EC – Nesta autonomia então não há lugar para a troca com o outro?
Melman
– Autonomia quer dizer também que eu sei que em todas as trocas há, necessariamente, uma coisa a ser perdida. Vai sempre haver um que será beneficiado e outro que vai perder. É um risco que na atualidade ninguém quer mais correr. Por isso as “boas” trocas hoje, atualmente, são aquelas que se processam na Internet, em que é possível a realização de uma troca puramente virtual, que não implica ninguém, que posso parar quando quero e ninguém perde. Isso dá um sentimento de potência e de domínio enormes, é um instrumento mágico extraordinário. Eu, que não sou grande coisa, me comunico com o mundo inteiro via Internet.

EC – A publicidade reforça esta autonomia?
Melman
– A prática publicitária encoraja a idéia de que o consumidor não decide senão em função de si mesmo. É o ideal que, embora não seja encorajado por nenhuma política, é apregoado pela publicidade. Se me vendem um carro é para que eu possa me tornar autônomo. Existe uma ética da publicidade de consumir mais do que as pessoas precisam.

EC – As novas tecnologias engendram novas subjetividades, constituem um novo sujeito?
Melman
– É uma boa questão. A nova tecnologia distancia definitivamente as pessoas. Como regra geral, após longo tempo de comunicação virtual, as pessoas se encontram e não suportam umas as outras. Hoje em dia estamos numa exigência de perfeição. O que temos face ao nosso semelhante é uma exigência de perfeição similar àquela que temos de perfeição com relação à máquina. E como somos muito intolerantes às imperfeições da máquina, também somos no que diz respeito às pessoas com as quais vivemos. Afinal de contas, uma máquina é uma máquina. É muito mais confiável e fiel do que um companheiro sexual. As relações entre os jovens são mais voláteis, eles podem clicar ou agir com as pessoas como quando usam um controle remoto para ficar mudando de canal. Mudar de parceiro é a mesma coisa. É a expectativa de uma sociedade tão volátil quanto as relações.

EC – Que tipo de relação ocorre na esfera virtual?
Melman
– Se, por um lado, a tecnologia distancia as pessoas, por outro, a Internet é o lugar onde é possível encontrarmos um parceiro que pensa exatamente como nós mesmos, e aí pode estar o perigo de se começar a delirar a dois. Lembra do caso daquele alemão que colocou um anúncio na Internet, procurando alguém que quisesse ser morto? Depois de achá-lo, matou o outro garoto e colocou o cadáver no refrigerador e foi comendo. É o caso de paranóia a dois. É quando chega a existir uma cumplicidade perfeita entre os dois parceiros. O ideal de todos nós é encontrar um parceiro com quem a gente tenha uma mesma idéia. Mas seria muito melhor uma vida conjugal com conflitos, do que uma vida conjugal perfeitamente harmônica, porque na última hipótese se está próximo de uma parceria paranóica.

EC – No caso das crianças e a Internet?
Melman
– A internet dá a sensação para as crianças de que a vida toda é virtual. Elas começam a ter dificuldade de estabelecer a diferença entre a vida real e a vida virtual. Na França correu o caso de um jovem de uma boa família, estudante do segundo grau que recebeu um amigo em sua casa. Depois de um tempo, os dois acabaram brigando por um motivo qualquer, e o garoto dono da casa matou o outro e tentou cortá-lo com uma faca elétrica dentro da banheira. Depois pediu à irmã que comprasse ácido clorídrico para dissolver o cadáver. Esse menino, absolutamente normal, agiu como se estivesse em um filme. Qual era a diferença para ele entre o real e o virtual? Todos a sua volta o consideravam um garoto normal, assim como os demais.

EC – Qual a grande contribuição da psicanálise para a educação?
Melman
– O problema é que não existem duas coisas separadas: de um lado o campo do saber e, de outro, o campo do comportamento. Mas o comportamento poderá ser inteligente, ou seja, decidido por si mesmo, na medida em que o aluno adquire e se apropria de seu saber. O problema é saber se o ensino que damos aos nossos alunos os transforma em papagaios, ou os faz homens e mulheres. O que nós esperamos do ensino que ministramos? Será que desejamos apenas fazer bons técnicos, produzir sujeitos que não são capazes de compreender o que fazem ou o que vivem? Ou será que desejamos construir pessoas capazes de organizar as suas vidas com a lucidez que o nosso ensino pode lhes dar. Se eu aprendo corretamente a história, eu posso compreender a vida política do meu país. Se eu aprendo matemática, eu posso compreender o funcionamento do pensamento. Se eu aprendo literatura, eu posso aprender que a poesia diz respeito à minha subjetividade, etc.

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