Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 115| Ano 12 | Jul 2007
AMBIENTE

Por Clarinha Glock

Houve um tempo em que falar de ecologia era coisa de poucos. Nessa época, lutar pela preservação do meio ambiente parecia mais um discurso de intelectuais, geralmente de esquerda. Mas desde que o australiano Bill Mollison começou a difundir o conceito da Permacultura, nos anos 70, um exército de sonhadores se colocou a postos para botar em prática pequenas grandes mudanças capazes de garantir a continuidade do planeta.

O termo Permacultura significa, de forma simplista, “cultura permanente”. Mas é muito mais amplo. A permacultura propõe a redução do impacto da ação do homem sobre o ambiente levando em conta os elementos dos ecossistemas de cada lugar – sol, vento, água, plantas, animais, prédios, seres humanos. Isso pressupõe uma ética de respeito ao meio ambiente em todos os níveis: econômico-financeiro, ético-cultural e arquitetônico-biológico. Para isso, são desenvolvidas tecnologias acessíveis e sustentáveis.

Os centros de referência de permacultura se multiplicaram em número e importância no Brasil. Nesses locais, é possível ver condomínios projetados a partir destes ciclos ecológicos fazer cursos e conhecer in loco exemplos de agricultura ecológica, casas construídas com materiais vivos, o uso de energias limpas e renováveis, a ecoalfabetização e inovações como o banheiro seco ou compostado, que não requer consumo de água e ainda fornece material para adubo orgânico nos cultivos. Um exemplo é o Instituto de Permacultura e Ecovilas da Pampa (Ipep), que funciona em Bagé, Rio Grande do Sul, desde 2000.

Como uma bola de neve, o Ipep que tem como diretor João Rockett, formado por Bill Mollison, vem formando outros multiplicadores e transportando a idéia pelos continentes. Tadewos Tiranchie, da Etiópia, recebeu o treinamento de permacultura no centro de referência de Goiás e no Ipep. Seu trabalho atual é repassar os ensinamentos para a organização em que trabalha, a Kambata Learn and Develop Association que, por sua vez, vai introduzir o conceito nas escolas do país. Por meio das crianças, diz Tiranchie, é mais fácil chegar à comunidade. Falta, no entanto, conseguir doadores e financiadores para o trabalho.

Aos poucos, o que se vislumbra é um movimento para incorporar o conceito da permacultura em todas as esferas. Dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), por exemplo, o engenheiro civil e agrônomo Miguel Aloysio Sattler, PhD em Tecnologia da Arquitetura, integra um grupo que assessora diretamente o reitor para transformar o ambiente universitário num espaço de sustentabilidade. Além disso, a idéia é formar cabeças mais conscientes. “Há uma quantidade de profissionais formados a cada ano que, no dia-a-dia, não têm práticas sustentáveis”, explica Sattler, que é professor do Departamento de Engenharia Civil e coordena a linha de pesquisa de edificações em comunidades sustentáveis.

O Sistema de Gestão Ambiental que está sendo implantado na Ufrgs prevê a formação de agentes ambientais – a cada semestre há uma nova turma – , e a implantação de sistemas de gestão de água, resíduos e novas construções dentro dos princípios de sustentabilidade. Também desenvolve e participa de projetos de construção de escolas em que se incorporam esses conceitos. Uma delas, a ser inaugurada até o final deste ano, é a escola de ensino fundamental e médio de Itapuã, em Viamão, em cuja obra foi utilizado o granito, pedra existente na região.

A outra escola, que conta com o apoio dos técnicos da Ufrgs, vai funcionar em Feliz e será destinada à formação de profissionais para a produção de cerâmica e para a agricultura – atividades desenvolvidas no Vale do Caí. As duas são projetadas com a preocupação de não utilizar materiais tóxicos na obra, aproveitar ao máximo a iluminação natural, ventilação, enfim, de diminuir os danos e integrar o espaço e a comunidade.

Tanto Sattler como o arquiteto Otávio Urquiza – que tem especialização em Permacultura – são unânimes em afirmar que a construção de moradias executadas sob o prisma da sustentabilidade sai mais barato, tanto a curto como a longo prazo. Urquiza calcula uma economia de até 60% em comparação com o custo de um produto de uma construtora financeira tradicional – “temos que dar a idéia de que não é magia, e sim ciclos de cooperação é que reduzem custos e possibilitam desengavetar pesquisas”. Além da preocupação com a saúde do morador, há economia de energia, pelo uso de luz solar, e uma série de outras vantagens que justificam o investimento.

Urquiza foi aluno de uma das primeiras turmas de permacultura de Bill Mollison. É o responsável técnico pelos projetos de duas ecovilas no bairro de Vila Nova, em Porto Alegre, criadas em sintonia com a Rede Mundial de Ecovilas, e que levam a marca Ecoovilas. Vinte casas já estão prontas e em uso – o projeto prevê 28 no total. “Economia e cooperativismo são a base das ecovilas”, explica.

O projeto prevê que os carros dos moradores das ecovilas fiquem abrigados embaixo de parreiras e que se produza vinhos em parceria com os produtores da região, já que predominam ali os descendentes de italianos. O princípio da permacultura está nesse uso multifuncional e na localização voltada para obter energia do sol, no telhado vivo que funciona como isolante térmico, na infra-estrutura, com separação de águas, de esgotos que viram praças de tratamento biológico e têm plantas aromáticas, e, por fim, até no paisagismo, integrando a infra-estrutura às edificações já que os jardins produzem alimentos e reaproveitam para a irrrigação as águas servidas tratadas.

Ética que dá marketing

Dentro deste contexto, algumas empresas descobriram que proteger a natureza, além de ser politicamente e eticamente correto, é mais um marketing poderoso capaz de aumentar a competitividade e ganhar novos mercados. A venda de refil para determinados produtos é feita com o objetivo de diminuir o impacto ambiental, por exemplo. A Natura, empresa de cosméticos, não só adotou as embalagens de produtos renováveis, como começou a estampar nelas uma tabela ambiental com a certificação de origem, qual o percentual que vem de fontes renováveis, o quanto é reciclável.

“Há um janela de oportunidades”, admite o advogado Giovanni Barontini, que é instrutor da Uniethos, diretor de sustentabilidade do Núcleo e Estudos do Futuro, sede brasileira do Projeto Millenium das Nações Unidas, e facilitador nacional do Carbon Disclosure Project. Em sua participação na 8ª Conferência Internacional de Permacultura, realizada em maio, em São Paulo, Barontini lembrou que há uma tendência de as organizações internacionais usarem os projetos ligados à permacultura para neutralizar suas emissões de carbono, como prevê o Protocolo de Kyoto e outros fundos de carbono governamentais e privados. “A permacultura, com sua visão sistêmica, tem como se inserir no mercado de empresas que buscam projetos de carbono com características sociais e ambientais mais consistentes”, observa.

Apesar de todos os avanços, o professor Sattler lembra que ainda falta conscientização da sociedade. “O aquecimento global agora é uma questão evidente, mas há outras. Há uma dificuldade de as pessoas enxergarem o contexto geral”, critica. “Não sei quanto tempo vão levar para detectarem a importância do que se come, bebe, respira, que pode justificar o aumento de doenças degenerativas, por exemplo”, diz.

Educação sem escola

Dos eixos em que se apóia a permacultura, a educação é talvez o mais difícil de construir. É preciso sensibilizar a população para mudar hábitos, vislumbrar novas perspectivas e ir à luta para implantar um outro modelo de vida e relação com a natureza. O mineiro Tião Rocha, 59 anos, tem obtido sucesso neste sentido. Rocha se define como educador por opção política, antropólogo por formação, folclorista por necessidade, e mineiro por sorte. É presidente e fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, ONG que há 23 anos se dedica a “responder a um monte de perguntas”, como ele mesmo diz.

A primeira delas foi se seria possível fazer educação sem escola. A segunda era se é possível fazer uma escola debaixo de um pé de manga e transformar qualquer espaço em um lugar de aprendizagem. “É possível, sim. Só não é possível fazer boa educação sem bons educadores”, afirma Rocha. Um bom educador, a seu ver, é aquele que está comprometido, mais do que com a “ensinagem”, com a aprendizagem. E ele começou ocupando as casas, as ruas, os quintais, as varandas de Curvelo, em Minas Gerais.

Criou a chamada “Pedagogia da Roda”: uma roda redonda, onde as pessoas se vêem, e todos os assuntos são matéria-prima de educação, basta priorizar o mais importante para aquele público em determinado momento. “Aprendemos que Paulo Freire não é para ser lido, é para ser praticado, ele deixa de ser um homem para ser um verbo: eu paulofreiro, tu paulofreiras… No presente do indicativo, porque é ação e reflexão, vai e volta para a roda”.

Foi, então, trabalhar no lixão de Vitória, Espírito Santo; no Vale do Jequitinhonha, em Minas; com a formação de educadores que trabalhavam com meninos e jovens nos campos de refugiados de guerra de Moçambique. “A gente começou a perceber que estes espaços, por mais traumatizados e empobrecidos, eram também lugares de aprendizagem e de formação, e que o nosso olhar para estas pessoas tinha que ser diferenciado”. Ele explica: não se deve olhar para as pessoas pelo lado da carência, mas pelo da riqueza. Em vez do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criaram o IPDH – Índice de Potencial de Desenvolvimento Humano.

Desta forma, chegaram à idéia das cidades educativas, onde a escola não é um lugar carrancudo, mas um espaço público alegre e tão bom que os professores, os alunos e os funcionários gostariam de ter aulas aos sábados, domingos e feriados. “É mais cômodo repetir o mesmo currículo, que está pronto há 500 anos, do que você, cada dia, construir um currículo novo a partir dos meninos”, admite Rocha, e por isso a mudança é difícil. “Uma cidade educativa é aquela onde as bibliotecas funcionam 24 horas por dia, porque é tão importante ter uma biblioteca aberta quanto um hospital”.

A idéia é mudar paradigmas. “Não temos que tirar os meninos da rua, temos que mudar a rua, porque a rua é o lugar da alegria, da festa, de comemorar o futebol, da festa do santo, do ato público, do carnaval. Por que não é o lugar também da cooperação, da educação e da formação?”, questiona o educador.

E é aí que entra mais claramente o conceito da permacultura. Segundo Rocha, esta cidade educativa tem que promover transformação social, que é uma equação matemática igual a compromisso ambiental + empoderamento comunitário + satisfação econômica + valores éticos, humanos e culturais. A transformação só acontece se os quatro elementos estiverem realizados. Isto já está funcionando em Araçuaí, no meio do Vale do Jequitinhonha, a 700 quilômetros de Belo Horizonte, uma região de clima semi-árido, com cerca de 35 mil habitantes. O Vale do Jequitinhonha foi escolhido por ser conhecido no imaginário brasileiro como o lugar da fome e da miséria. Juntando o conhecimento dos centros de referência de permacultura do Brasil com o apoio da Fundação Avina e outras organizações, Rocha começou uma transformação social há nove anos.

Como cidade sustentável, no entanto, o projeto funciona mesmo há dois anos, ainda sem ajuda do governo. As comunidades se organizam para resolver questões. “O que se chama de empoderamento comunitário, lá nós chamamos de ‘empodimento comunitário’: ‘Nóis podi’”, observa. A grande questão não é discutir o que é legal, ou formal, mas o que é ético. “Se é ético, podemos fazer. Se não está formalizado, cria-se a forma. Se não é legal, muda-se a lei”. A mudança salta aos olhos, diz Rocha. Primeiro, na auto-estima. Depois, pelo processo permanente e crescente de busca de melhorias ambientais e da vida, de apropriação, de estética e de felicidade.

Só para ter uma idéia: em Araçuaí os garotos formaram um coral. Com o dinheiro da venda dos CDs que fizeram, resolveram construir um cinema para a cidade. E eles vão ser os gestores. Mas Rocha e seu grupo têm ainda alguns desafios. Um deles é evitar o êxodo de homens jovens que saem do Vale do Jequitinhonha para o interior de São Paulo e Goiás para trabalhar no corte de cana, onde passam nove meses em condições de trabalho escravo, deixando para trás suas famílias desestruturadas.

Dos meninos que passaram pelo projeto do CPCD, seis já saíram, não para serem mão-de-obra para a cana, e sim para a Universidade de Música Popular de Barbacena, em Minas. Outros quatro estão na escola do Balé Bolshoi de Joinville, em Santa Catarina. Desenvolvimento, lembra Rocha, é criação de oportunidades.
Mais informações sobre a atividade do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) no site www.cpcd.org.br

Uma ferramenta para combater a pobreza

O conceito da “cultura permanente”, sustentável, se espalhou pelo mundo como uma ferramenta alternativa para combater a pobreza. É o que ensina John Nzira, diretor da empresa de Consultoria Ukuvuna Permaculture na África do Sul. Ele presta assessoria a representantes de escolas para projetar e incluir em seus currículos a prática da permacultura. Um dos desafios que encontra é o grande número de órfãos decorrentes do HIV – um milhão – entre a população daquele país. “É preciso convencê-los a ir à escola e prestar ajuda a estas crianças”, relata Nzira.

Outro problema é a falta de trabalho. Sem emprego, a taxa de criminalidade sobe. “Nós encorajamos a população pobre a participar das atividades nas escolas, produzindo alimentos para a instituição e também para eles próprios”, conta. Parte dos alimentos é vendida, gerando renda, porque não é só de comida que precisam – necessitam de sapatos, roupas. Então esse dinheiro volta para a comunidade e ajuda a melhorar a vida dessas pessoas. Criando atividades ligadas à permacultura, as crianças e os adultos ficam ocupados e não têm tempo para pensar ou se envolver em atividades criminosas, avalia.

Na África do Sul, o Ministério da Educação e o Ministério de Desenvolvimento são parceiros para fazer com que a permacultura seja adotada nessas escolas.

Narsanna Koppula, secretário da Aranya Agricultural Alternatives, na Índia, faz um trabalho semelhante de sensibilização, mas diretamente com os agricultores. Começou buscando alternativas para o problema da água que não era potável e da degradação da terra. “Conseguir comida é o principal problema aqui”, descreve. Ele ainda encontra resistência. Só depois que a comunidade entende e se apropria do projeto, é que pode funcionar realmente, avalia.

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