Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 116 | Ano 12 | Ago 2007
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Uma tragédia esperando para acontecer. O mesmo pensamento deve ter passado pela cabeça de todos que pousavam ou decolavam no aeroporto de Congonhas. A extensão da tragédia dependia da imaginação de cada um. Um choque contra um daqueles edifícios cujas coberturas não pareciam estar a mais de 50 metros da barriga do avião que descia ou subia. Força insuficiente para decolar sem nenhuma alternativa a não ser desabar sobre os prédios num extremo ou no outro da pista. Um pouso imperfeito também sem espaço para ser corrigido ou compensado antes de o avião sair do aeroporto e invadir um quarteirão habitado. O cardápio de opções para previsões tétricas era imenso. Aterrissagens e partidas seguras eram sempre acompanhadas de suspiros de alívio – ainda não foi desta vez! – mesmo que inconscientes, dentro dos aviões. Finalmente, na última terça-feira, chegou a vez.

O fato de a tragédia prevista ter demorado tanto para acontecer ao mesmo tempo atenua e agrava a insensatez de manter um aeroporto no meio de São Paulo. Quando foi construído Congonhas, não tinha tanta cidade em volta. Foi a cidade que cresceu insensatamente e cercou o aeroporto. Como a tragédia insistia em não acontecer, podia-se deduzir que os riscos aparentes não eram tão grandes assim. Ou não eram tão excepcionais. Quem chega de avião a Hong Kong, dizem, pode abanar durante o pouso para pessoas dentro dos apartamentos que ladeiam o aeroporto, e o aeroporto de Lima, mesmo sem área urbana em volta, seria um exemplo entre muitos outros mais assustadores do que Congonhas. A longa falta da grande tragédia autorizava a permanência de Congonhas, desmentia seus críticos e confortava os assustados. Quando as companhias aéreas decidiram centralizar o tráfego nacional em Congonhas e o aeroporto foi reformado e ampliado, no mesmo lugar, para isso, foi como se avalizassem a certeza da sua segurança. Afinal, os maiores interessados em preservar seu equipamento e seus clientes eram elas. Mas estavam abonando a insensatez.

Mesmo que se prove que o acidente foi uma fatalidade que poderia acontecer nos melhores aeroportos, em países não tão brasileiros, a verdade é que a espera acabou. Agora, enquanto se decide quem são os atuais responsáveis e que cabeças rolarão, pois cabeças têm que rolar, cabe perguntar por que a insensatez nunca foi repensada durante todos os anos em que a tragédia não veio. Em que havia tempo.

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