Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 117 | Ano 12 | Set 2007
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Quando comecei no jornalismo, há 200 anos, fazia de tudo – inclusive horóscopo, como já contei mais de uma vez. Me escalaram para ser editor de Frescuras, que era como chamavam as seções de entretenimento e cultura do jornal. Uma das minhas tarefas diárias era redigir um guia de bares e restaurantes, que eu enchia de pessoas conhecidas da cidade, mesmo algumas que jamais freqüentariam os lugares em que eu as via. E que na maioria dos casos nem eu freqüentava. Além de gente de verdade comecei, para variar, a citar personagens inventados, como o conde italiano Ettore Fanfani, dono de uma fortuna de origem misteriosa que costumava recitar DAnnunzio no ouvido das meninas e tomar Negronis com canudinho, ou o jovem executivo Aldo Gabarito, dono do único Porsche conversível da cidade. Eu acompanhava suas andanças pelos bares e restaurantes, revelava suas preferências gastronômicas e suas frases, e não raro os colocava na mesma mesa com personalidades reais e especulava sobre o que tinham conversado. E nutria, confesso, o desejo secreto de todo ficcionista, que é o de ver um personagem seu ganhar vida própria. Um dia o conde Fanfani pularia da minha seção para a crônica social do jornal, ou alguém me diria que conhecera o jovem Aldo na escola. Nunca aconteceu. Aconteceu que uma vez um dono de restaurante me confidenciou que o responsável pelo guia de bares e restaurantes do meu jornal vivia lá, e comia de graça em troca da citação no guia. No fim a única criação minha que ganhou vida própria fui eu mesmo.

Como ninguém acreditava nos meus personagens, ou, aparentemente, sequer os notava, me senti encorajado. Comecei a inventar, não apenas falsos freqüentadores de bares e restaurantes, mas falsos bares e restaurantes. Tão inverossímeis – como um misto de churrascaria e sauna servido por prendas só de botas, ou coisa parecida – que, pensava eu, todo o mundo entenderia a brincadeira. Pensava errado. Depois de procurála em vão com um grupo de amigos, um executivo do jornal pediu para saber o endereço exato da tal churrascaria lúbrica, ou uma boa explicação. Acabaram-se as invenções.

Minha tentativa de ser criativo com o horóscopo também fracassou. Como tinha pouco tempo para inventar previsões e conselhos para cada signo, outra tarefa diária, comecei a revezar os signos, na ingênua suposição de que cada leitor só lê o que lhe interessa. No meu horóscopo apressado, o que um dia valia para Capricórnio no outro valia para Libra, sem mudar um alerta, um bom presságio ou uma vírgula. Mas, como se sabe, todos lêem todo o horóscopo, todos os dias. Choveram protestos. Fim da minha curta carreira de astrólogo.

Acho que foi então que me botaram na editoria internacional, onde as oportunidades para fazer ficção eram mínimas.

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