Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 118 | Ano 12 | Out 2007
WEISSHEIMER

Procuradores da República entraram com uma ação na Justiça Federal em Santa Catarina contra o grupo RBS, por ter mais de duas emissoras no estado, configurando a prática de monopólio, proibida por lei. A RBS, segundo os procuradores, também desrespeita a legislação que estipula que as TVs cedam espaços em suas programações para iniciativas locais. Segundo Celso Três, procurador da República em Tubarão, a idéia da ação surgiu após a RBS comprar, em agosto de 2006, o jornal A Notícia, de Joinville. Com o negócio, a empresa passou a dominar ainda mais o mercado de jornais em Santa Catarina, o que, na avaliação do procurador Celso Três, é prejudicial à população. Além do A Notícia, a RBS é proprietária dos jornais Diário Catarinense e Jornal de Santa Catarina. Situação semelhante ocorre no Rio Grande do Sul, onde a RBS é proprietária dos jornais Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro e Diário de Santa Maria.

O Brasil de Cartola: não deixe de ver

Para quem não teve oportunidade de assistir no cinema, já está disponível em DVD o documentário Cartola – Música para os olhos, dirigido pelos pernambucanos Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. É um filme que honra a memória de um grande brasileiro. Luiz Zanin, crítico de O Estado de São Paulo, resumiu bem o significado e a dimensão deste documentário: “ Há um Brasil falsochique, esnobe, que acaba sendo brega. O Brasil da Daslu, digamos. Há o Brasil chique para valer, profundo, inventivo, artístico. O Brasil de Cartola, por exemplo. O Brasil de músicas maravilhosas como As rosas não falam, Acontece, O mundo é um moinho, para citar apenas algumas das mais conhecidas. Eu aconselharia demais esse filme para quem já anda saturado de pregação derrotista que põe sempre o Brasil à beira do abismo, quando não já devidamente instalado dentro dele”.

Ele prossegue: “Nada em Cartola é ufanista. Pelo contrário. Como poderia ser ufanista um filme que registra a trajetória de um gênio da música que só conseguiu gravar seu primeiro disco quanto tinha 66 anos de idade e ganhava a vida como contínuo e lavador de carros? Bem, esse é o Brasil e, como tantas outras nações, é injusto com o que tem de melhor – o seu povo. E, entre esse povo, de vez em quando acontece o milagre e nasce gente como o próprio Cartola”.

O filme mostra exatamente isso. A figura de Cartola emerge gigantesca, não só por sua qualidade como compositor e músico, mas, principalmente, pelo seu olhar sereno, altivo e criativo diante da vida e da arte. Imperdível.

50 anos e uma certa amnésia

A RBS está comemorando seus 50 anos com pompa, circunstância e uma conveniente dose de amnésia seletiva. Os festejos escondem alguns fatos importantes que marcaram a história e o crescimento do grupo. Mais do que isso, distorce fatos, em especial aqueles relacionados ao período da ditadura militar. Como a maioria da grande mídia brasileira, a empresa gaúcha apoiou o golpe militar que derrubou o governo de João Goulart. O jornal Zero Hora ocupou o lugar da Última Hora, fechado pelo regime militar por apoiar Jango. Esse é o batismo de nascimento de ZH. Como escreveu Eleutério Carpena, em uma edição especial da revista Porém sobre a RBS: “A mão que balança o berço de ZH é da violência contra o Estado Democrático de Direito”.

Três dias depois da publicação do famigerado Ato Institucional n° 5 (13 de dezembro de 1968), ZH publicou matéria sobre o assunto afirmando que “o governo federal vem recebendo a solidariedade e o apoio dos diversos setores da vida nacional”. No dia 1° de setembro de 1969, o jornal publica um editorial intitulado “ A preservação dos ideais”, exaltando a “autoridade e a irreversibilidade da Revolução”. A última frase editorial fala por si: “Os interesses nacionais devem ser preservados a qualquer preço e acima de tudo”. A expansão da empresa se consolidou em 1970, quando foi criada a sigla RBS, de Rede Brasil Sul, inspirada nas três letras das gigantes estrangeiras de comunicação CBS, NBC e ABC. A partir das boas relações estabelecidas com os governos da ditadura militar e da ação articulada com a Rede Globo, a RBS foi conseguindo novas concessões e diversificando seus negócios.

Outro fato marcante da história do grupo que não é mencionado no caderno comemorativo é a ativa participação da empresa no processo de privatização da telefonia no RS, durante o governo de Antônio Britto, ex-funcionário da RBS. Aliás, não só no RS. Segundo pesquisa realizada por Suzy dos Santos (Ufba) e Sérgio Capparelli (Ufrgs), a RBS esteve presente em praticamente todos os momentos do processo de privatização das telecomunicações no país, durante o governo FHC. O ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo FHC, Pedro Parente, assumiria depois um alto cargo na direção da RBS. Aqui no RS, desde o golpe de 1964, a empresa sempre teve uma relação íntima com os governantes de plantão, com raras exceções.

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