Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 119 | Ano 12 | Nov 2007
FRAGA

A língua, único músculo que diz a que veio, só não é mais exigido que o músculo cardíaco. Por isso a língua, como qualquer parte do corpo, também fica fora de forma. Pode acabar flácida e sem fôlego até para dizer polissílabos e proparoxítonas.

Aí, pela lei do menor esforço, em vez de pântano, diz pantano, interim no lugar de ínterim etc. O problema fica sério quando, assim desmilingüida, a língua nem consegue declarar algo constitucionalissimamente ou inconstitucionalissimamente.

Quer dizer, a condição física da língua pode até afetar a vida nacional. Embora não se note, a língua também ganha adiposidade: enche a boca e se torna linguaruda, capaz de inflar frases, dizendo mais que o necessário e, o que é pior, de engordar o sentido do que é dito. Temos aí um quadro de verborragia, que seria o excesso de peso da fala. Culpa da língua, incapaz de manter a linha do linguajar.

Aí é que entra um profissional que já faz falta, o palavral trainer. Ele viria para melhorar a performance das más línguas, aquelas estufadas de frases prontas, obesas de redundâncias, a ponto de perderem a agilidade oral.

Não, o palavral trainer não seria um mix de professor de dicção com fonoaudiólogo. Esses têm sua valia, porém suas funções tratam de eliminar defeitos da fala, enquanto o palavral trainer se encarregaria da aparência da linguagem, da silhueta oratória. Seria alguém para melhorar o desempenho lingüístico do ponto de vista estético-sintético, se é que já não estou precisando de um neste exato trecho.

O palavral trainer, contratado por quem quisesse deixar a língua elegante, acompanharia a pessoa no dia a dia, em exercícios rigorosos, visando a redução da expressão. Com programa adequado a cada tipo de cliente, simularia as situações onde a língua encorpada soa à toa. Clientela sobra: comunicadores, palestrantes, discursadores, fofoqueiros, todos poderiam afinar o estilo.

Os resultados agradariam a falantes e ouvintes: a pronúncia ficaria menos pronunciada, o falatório desincharia, o vocabulário ficaria esbelto. Tudo porque o palavral trainer, com a rigidez do seu método, iria corrigir o cliente durante sua rotina pessoal e funcional. Ouviria telefonemas, diálogos, discussões, explanações, e interviria no ato, influindo nas conseqüências de cada conversação. Seria o fim da eloqüência pançuda.

Bem-vindo seja ele.

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