Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 120 | Ano 12 | Dez 2007
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Há tempos li uma boa comparação: a China é como a internet. Todo o mundo sabe que uma coisa daquele tamanho, com tanto público, tem que ser um sucesso comercial e dar lucro. Mas ninguém ainda sabe exatamente como.

Não falta gente tentando descobrir. O tamanho do mercado potencial chinês, mais de 1 bilhão de pessoas, derrotou as restrições americanas ao velho inimigo comunista e suas violações de direitos humanos, pois, se não se perde muita coisa bloqueando Cuba, despreza-se quase um quarto da população mundial discriminando a China. E os chineses estão sendo tão pragmáticos quanto os americanos. Com sua abertura controlada para investimentos externos e multinacionais, quintuplicaram sua economia nos últimos 20 anos. Mas li que as esperanças mais otimistas, de gente que sonhava com fortunas instantâneas se conquistasse apenas meio por cento do mercado chinês, estão sendo frustradas. Descontando-se os 900 milhões de camponeses e os urbanos economicamente marginalizados, sobra uma classe média equivalente à dos Estados Unidos, com uma renda média muito inferior e hábitos de poupança mais conservadores. Algumas empresas, como a Coca-Cola, claro, e a Motorola, estão dando certo no complicado mercado chinês, mas 60% dos investidores estrangeiros ainda não ganharam nada, e os que ganham, ganham pouco. Uma das coisas com que os estrangeiros não contavam é que haveria empresas chinesas, mais acostumadas com a burocracia e a corrupção locais, disputando o mesmo mercado. De qualquer maneira, como no caso da internet, cedo ou tarde a lógica prevalecerá. E estaremos todos produzindo para vender na China – e comprar da China.

Que país de tamanho parecido com o nosso serviria como modelo para o Brasil, excluídos os próprios Estados Unidos? Para defender uma imitação da China, só fazendo como aquele enólogo francês contratado para produzir vinhos iguais aos da França na Califórnia que, depois de plantadas as videiras e instalados os equipamentos, disse: “Pronto, agora é só esperar 300 anos”. Além de 3 mil anos de civilização, precisaríamos passar por algumas revoluções para chegar ao mesmo ponto, depois de decidir se o sucesso valeria tanto sangue. (Desconfie sempre dos que pregam banhos de sangue, eles sempre se referem ao sangue dos outros.) A Índia parecia um exemplo do que se queria evitar, um Brasil levado às piores conseqüências. Hoje é um exemplo de desenvolimento acelerado mas a partir de coisas que aqui ainda parecem remotas – como uma reforma agrária de verdade, por exemplo. O Canadá seria um bom modelo, mas grande parte do Canadá é só paisagem, sem gente. E o frio? A Rússia trocou o capitalismo de Estado pelo gangsterismo privado, também não serve. A Austrália pelo menos desmente aquelas pessoas que dizem que o problema do Brasil foi a qualidade da nossa colonização por Portugal. Foi povoada por degredados e prostitutas e deu no que deu. A Argentina? Precisaríamos ser argentinos.

O grande modelo para o Brasil dar certo talvez seja o próprio Brasil – nenhum outro tem as mesmas características, história etc. É só começar de novo – desta vez com muito petróleo!

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