Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 121 | Ano 13 | Mar 2008
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Uma crise de crédito nos Estados Unidos estremece os mercados financeiros do mundo inteiro, a quantidade de utilitários queimando gasolina nas estradas americanas tem tudo a ver com o que você e eu pagamos por ela no posto da esquina e muita gente que nem se lembra em quem votou para vereador no seu país, e por que, sabe a razão de preferir o Barack ou a Hillary. Gostando ou não, vivemos todos em arrabaldes da América. Não surpreende que a principal festa destes subúrbios concêntricos seja a da entrega dos Oscars, quando a fábrica de imagens do nosso centro festeja justamente o sortilégio que nos domina: a sua riqueza, a sua potência, o seu fascínio. Enfim, tudo o que nos mantém presos na poltrona até depois da meia-noite, convencidos que mesmo o tédio entre as partes boas do espetáculo nos diz respeito. Afinal, é uma festa comunitária.

O ritual dos Oscars, como todos os rituais, tem suas reincidências. Desta vez não houve muitos momentos “Meu Deus do céu!”, quando alguém que julgávamos morto há anos aparece no palco e é aplaudidíssimo por ainda estar vivo. Poucos vexames, também. Todos os agradecimentos foram comedidos, talvez porque tantos premiados fossem visitantes estrangeiros na cidade e nenhum fosse o Roberto Benigni, o que explicaria o bom comportamento geral. Se bem que o Javier Bardem, se entendi bem, passou o tempo todo aos beijos com a própria mãe. O momento mais classudo, ou apenas mais inglês, da noite foi o do Daniel Day Lewis ajoelhando-se diante da única realeza presente na festa, a Helen Mirren, antes de receber o Oscar das suas mãos.

O apresentador Jon Stewart falou do pouco tempo que os escritores tiveram, depois do fim da sua greve, para preparar o roteiro do espetáculo, mas a sua melhor piada pareceu feita na hora. Depois de notar que três atrizes presentes no teatro estavam grávidas, disse que talvez fosse cedo para fazer uma contagem final, já que a noite recém começara e Jack Nicholson estava no recinto. Quem mais gostou da piada foi Nicholson, hoje o velho sátiro oficial de Hollywood. Stewart apresenta um show na TV que costuma baixar o pau no Bush, mas houve poucas referências políticas durante a noite. Na questão das guerras no Oriente Médio, deu empate técnico. Uma seqüência em que soldados americanos no Iraque anunciaram os vencedores numa categoria, depois a premiação de um documentário sobre um afegão torturado até a morte numa base americana. No seu agradecimento o diretor do documentário fez um breve protesto contra a tortura e mencionou Guantánamo e Abu Ghraib. Não se falou mais no assunto.

Não deram um Oscar para a favorita sentimental de todo o mundo, Julie Christie, mas não houve grandes injustiças nas premiações. Só acho que o prêmio para melhor fotografia deveria ser do “Onde os frescos não têm vez”, ou que título deram ao filme em português. A paisagem, como em todos os filmes dos irmãos Coen, aquela dupla de farmacêuticos que, ninguém sabe como, faz cinema, tem uma participação essencial na história e no seu tom de aridez moral. Na verdade, a maior injustiça da noite foi não darem à paisagem do filme dos Coen o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

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