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Nº 121 | Ano 13 | Mar 2008
CULTURA

Por Naira Hofmeister

Há até bem pouco tempo seria difícil identificar trajes e costumes dos colonizadores de Porto Alegre entre os borrões de uma pintura gigantesca no saguão do Instituto de Educação General Flores da Cunha, na Capital. A Chegada dos Casais Açorianos, concluída por Augusto Luiz de Freitas em 1923, é a maior obra de arte do estado: mede quase sete metros de largura e seis de altura. É a última das três telas de grandes proporções do IE a ser restaurada, processo que já leva dois anos. Custou R$ 500 mil e empregou técnicas semelhantes à recuperação dos afrescos da Capela Sistina, no Vaticano. O projeto é da Associação dos Ex-Alunos, que depois de 20 anos conseguiu apoio das leis de incentivo à cultura e da iniciativa privada.

Além da ilustração dos açorianos, outra obra do gaúcho Luiz de Freitas ornamenta o saguão da antiga Escola Normal: A Tomada da Ponte da Azenha, que mede 5,95m x 6,20m, e fica à direita de quem sobe as escadarias. No lado oposto, do mesmo tamanho, está Garibaldi e a Esquadra Farroupilha, do piauiense Lucílio de Albuquerque. É a mais antiga: data de 1919.

As três telas foram encomendadas pelo governador Borges de Medeiros para o recém inaugurado Palácio Piratini, em 1921. O político queria obras de grandes proporções, mas não consultou o tamanho das paredes da nova morada. Como não cabiam no Palácio, vagaram durante anos por depósitos. Inaugurado em 1935 para a exposição do centenário Farroupilha, o atual prédio do IE era dos poucos que comportava as telas. Não se sabe ao certo quando, mas a única certeza é que chegaram ao instituto depois de 1944, já que uma fotografia da Revista do Globo desta época mostra as paredes vazias.

TRAGÉDIA ANUNCIADA – O rosto de Garibaldi foi o primeiro fragmento a ser restaurado, no final de 2005, época em que o projeto não tinha nem patrocínio. Quem participou desse momento garante que todos se emocionaram ao ver os olhos azuis do general farrapo novamente. Antes, era impossível distinguir qualquer contorno nos três quadros, completamente deteriorados.

O Instituto de Educação tem 3 mil alunos, nem sempre zelosos desse patrimônio. “Apagamos assinaturas com canetas coloridas. Nos rasgões, enfiavam biscoitos, latinhas de refrigerante, papéis de balas e até cocô de gatos”, relata a restauradora Leila Sudbrack.

As administrações estaduais e até mesmo diretores do colégio foram omissos: as telas não receberam manutenção alguma e, em razão das dimensões excepcionais, nunca saíram das paredes do IE. Em 1969, quando houve a troca do telhado, ficaram por vários meses a céu aberto e resistiram a uma enchente. “Foi um período de muita chuva e as escadarias viraram verdadeiras cascatas”, recorda Ana Amélia Bulhões, presidente da Associação dos Ex-Alunos.

“É inacreditável terem sobrevivido ao sol direto, vento e chuva. Mas me parece que o maior dano foi a indiferença da comunidade em relação ao valor histórico e artístico das pinturas”, lamenta Leila Sudbrack.

PROPORÇÕES MONUMENTAIS – Leila Sudbrack e seus colegas tiveram trabalho dobrado por conta das dimensões extraordinárias dos quadros. “Numa tela convencional, o restaurador vira e desvira, conforme sua necessidade”. No IE, Sudbrack levou mais de dois meses só para fixar as tintas.

“Fizemos uma longa preparação para poder removê-las da parede. Estavam tão danificadas que havia sério risco de ruptura e desastre total”, relata.

Os técnicos da equipe de Leila também não receberam todo o dinheiro prometido. “Faltam pelo menos R$ 150 mil”, informa Ana Amélia que, apesar disso, está otimista. “Teremos dinheiro para inaugurar em abril”.

UMA BIOGRAFIA A SER ESCRITA – A recuperação dos quadros do Instituto de Educação provocou a redescoberta de Augusto Luiz de Freitas, nascido em 1868, em Rio Grande. Filho de português, viveu a maior parte da sua vida na Europa, e morreu na Itália, aos 94 anos. “Seu nome já consta na coletânea de artigos Artes Plásticas do Rio Grande do Sul: uma panorâmica, lançado em janeiro”, observa Ana Amélia Bulhões.

A neta do artista, Laura Alhaique, que vive na Itália, doou uma carta para o projeto, na qual Freitas faz um balanço de sua trajetória, aos 90 anos, destacando as telas do Instituto (Veja no site do EC).

“Minha produção é de cerca de dois mil quadros. As de maior vulto são: a cúpula do Pavilhão Brasil, na exposição de Turim em 1911, e os dois grandes quadros históricos representando o combate na ponte de Azenha em 1835, em Porto Alegre, célebre episódio da Guerra dos Farrapos; e os açorianos chegando ao Rio Grande do Sul”. Mas as notícias do Brasil foram tão escassas que ele morreu sem saber que as telas não foram para o palácio do governo do estado.

A carta do artista, os objetos encontrados nos quadros e o processo de restauração são matéria-prima para um livro e uma mostra itinerante, que irá percorrer as escolas do estado nos próximos meses.

FUTURO PRESERVADO – Em dezembro, Leila Sudbrack propôs que as escadarias fossem fechadas para a circulação. “A proteção a essas obras é obrigatória”, defende. A restauradora garante que tem apoio do diretor do Instituto de Educação, professor Paulo Sartori, e dos órgãos patrimoniais do estado (Iphae) e da União (Iphan). “O isolamento será simples e sem grandes despesas”, esclarece.

E defende que o local se transforme em pinacoteca. “Uma pinacoteca com três quadros. Mas e que quadros”! Apesar de não se manifestar a favor da restrição de acesso, Ana Amélia Bulhões diz que se houver consenso a Associação de Ex-Alunos deve encabeçar o projeto.

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