Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 121 | Ano 13 | Mar 2008
FRAGA

A situação mundial das palavras não parece mas é alarmante. Empobrecimento e redução dos vocabulários, por um lado, e o imperialismo do economês e a elitização dos jargões, por outro, obrigaram a mobilização de palavras. Conscientes da sobrevivência precária numa era visual, elas querem defender territórios e garantir os direitos de circulação em todas as camadas sociais. Daí o Palavrórium, o primeiro fórum da palavra.

Dada a experiência de Porto Alegre com os fóruns mundiais, as palavras decidiram realizar aqui essa decisiva discussão internacional. Pois aqui os idiomas sempre se sentiram à vontade em meio ao gaúchês, as línguas se entreveraram numa boa para questionar o mundo. Agora, vão se ocupar das suas próprias condições de expressão para formular novos caminhos boca afora, impressos adentro.

O programa é imenso. Vai desde as imposições na impostação de voz até a ascensão das gírias de minorias à dicionarização imediata. Questões como o favelamento de palavras através da aglutinação de sílabas, que afetam a compreensão de frases inteiras, e também o avanço crescente do estrangeirismo sobre o linguajar regional, que descaracteriza até nacionalidades, tudo efervescerá em debates. Não vai ser fácil organizar as propostas, quando se sabe que há palavras participantes que representam, justamente, essas ameaças.

A maior polêmica é a vinda de delegações das línguas dominantes, um G8 verbal. Seu interesse como grupo, pra não dizer ganância, é absorver espaços no próprio evento, e daí a diminuição das mesas de debates com temas menores, como sotaques em desaparecimento, pronúncia analfabeta etc.

Uma das atrações é a comunicação, em si, no encontro de locuções idiomáticas de diversos países, que se sentem eternamente prejudicadas em versões escritas e, sobretudo, nas traduções simultâneas. Como irão encaminhar suas proposições? Afinal, para se fazer entender, elas dependerão dos tais serviços que irão criticar!

Assunto conflitante é o da sintaxe de internet. Reflexo da grande revolta da linguagem-padrão, que sofre mutilações ortográficas e gramaticais diárias em celulares e msn, essa pauta tem tudo para elevar os ânimos. Pior ainda se for aceita a participação de novos meios.

Já a unificação do português, uma suspeita injunção da globalização, vai propiciar o humor da ocasião: se a proposta é risível em teoria, imagine na prática.

Enfim, poderá se o fórum dos desaforos.

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