Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 123 | Ano 13 | Mai 2008
EDUCAÇÃO

Por Grazieli Gotardo

No dia 10 de julho deste ano, a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) completa dez anos de existência. Na comparação com a universidade estadual almejada pelos movimentos sociais que se mobilizaram pela sua criação, a Uergs está transfigurada e se distanciou da sua missão original: oferecer Ensino Superior público e gratuito a quem não tem acesso à universidade, com ênfase nas vocações regionais. Em março, a Comissão de Educação da Assembléia Legislativa criou uma subcomissão para analisar, em encontros regionais, os problemas enfrentados pela universidade, alguns deles crônicos. Temas como cortes orçamentários, redução de vagas, não-realização de eleição para reitor, carência de professores e a alteração da vocação da instituição de Ensino Superior para um mero centro de formação de tecnólogos são debatidos nas audiências públicas, nas quais não faltam denúncias sobre estratégias para inviabilizar a Uergs – que tem postos de comando ocupados por CCs e dirigentes ligados a instituições privadas.

Na verdade, estão discretamente destruindo a Uergs”, denuncia a deputada Marisa Formolo, presidente da subcomissão. A Associação de Docentes da Uergs (Aduergs) teme o “desmonte” da universidade e critica as constantes ações “ou a falta delas” por parte da atual gestão. “A Aduergs não concorda com a forma como a atual reitoria tem atuado e quer a ampliação dos fóruns de discussão através da participação mais efetiva da comunidade acadêmica e da sociedade na reestruturação e consolidação da ú nica instituição pública estadual de Ensino Superior”, alerta Magnólia da Silva, diretora da entidade e do curso de Tecnologia em Agropecuária da Uergs, em Santa Cruz do Sul.

O reitor Carlos Alberto Callegaro concorda que a Uergs precisa de ajuda, mas reclama que herdou problemas estruturais. “Não temos sequer regimento interno para fazer eleições, pois não há regras. Falta investimento financeiro para laboratórios, existem convênios vencidos e mal feitos, compra de vagas em universidades particulares que estamos pagando, entre outros problemas antigos que estão sendo resolvidos aos poucos”, enumera. “O que está acontecendo na Uergs é um descumprimento da Lei. Para não fazer eleição e manter os CCs, não consolidam os conselhos, não chamam os concursados, nem fazem vestibular”, rebate Amarildo Cenci, diretor do Sinpro/RS.

DESMONTE – Além da precariedade do quadro de docentes, agravada com a extinção dos contratos temporários de 101 professores, o que praticamente inviabiliza 20 das 23 unidades espalhadas pelo estado, a polêmica mudança de vocação da Uergs para um centro de tecnólogos é vista como mais uma estratégia de esvaziamento da instituição. “Isso é um absurdo, fora de cogitação. E o que vamos fazer com os 15 Cefets que estão sendo criados pelo governo”?, reage Callegaro. “A Uergs nasceu com duas áreas prioritárias: tecnologias e licenciaturas. Ela precisa voltar a atuar nessas frentes, pois é assim que atende as necessidades do estado, tanto no ensino público, que é carente de professores, quanto na formação de mãode-obra qualificada para o setor produtivo”, rebate Marisa Formolo.

Uma audiência pública da subcomissão em Guaíba, no mês de abril, reafirmou a importância da Universidade continuar oferecendo cursos superiores. Há dois anos sem vestibular, a Engenharia em Sistemas Digitais, da unidade da Uergs no município mobiliza alunos e a comunidade, que temem o seu fechamento. A carência de profissionais qualificados em Tecnologia da Informação é consenso. “Dos 13 formados até agora, cinco foram admitidos no mestrado em microeletrônica da Ufrgs, seis estão empregados com salários iniciais de R$ 8 mil, um foi contratado pela única fábrica de circuitos integrados da América Latina, situada em Porto Alegre, e outro montou uma empresa própria”, exemplifica o professor Rodrigo Warzak, coordenador de Ensino na Escola Técnica Sólon Tavares, de Guaíba. “Muitos alunos em formação trabalham como professores de contrato temporário em escolas técnicas, inclusive na nossa”, relata Warzak.

Para o empresário do setor de TI, Julio Anjos, a Uergs “é um problema político” e a Universidade “não deveria estar refém de um governo”. Diretor da empresa Compy Network, de Guaíba, ele confirma que o setor de TI tem carência de mão-de-obra em todos os níveis. “Uma universidade estadual forte pode colaborar muito no sentido de suprir essa carência”, aponta. O Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), empresa pública que pesquisa e desenvolve circuitos integrados com investimentos de R$ 260 milhões do governo do estado, tem dificuldades em montar seu quadro de recursos humanos e, inclusive, repatriou profissionais brasileiros que estavam no exterior para suprir a falta de especialistas. “O Ceitec é foco para atração de investimentos ao RS que vão demandar recursos humanos. A continuidade da Uergs e a aposta em cursos como o de Engenharia de Sistemas Digitais, principalmente por ser uma universidade pública, é fundamental”, avalia Sérgio Dias, presidente do Ceitec.

Mais do que a formação de mão-de-obra, a universidade estadual tem um papel imprescindível no desenvolvimento econômico e social do estado, assim como a USP em relação a São Paulo, enfatiza Amarildo Cenci. Ele afirma que o trabalho da subcomissão e a pressão dos movimentos sociais e sindicais serão intensificados no sentido de cobrar do governo o cumprimento da Lei e de uma política para a instituição. “A Uergs é estratégica para o estado e não pode ser tratada como troco no jogo político dos governos. Precisa de uma definição urgente”, alerta o dirigente.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS