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Nº 123 | Ano 13 | Mai 2008
ENSINO PRIVADO

Nesse mesmo dia em que estudávamos
O açúcar e outros escritos dele,
um aluno dizedor de poemas me disse
que vira o próprio Ferreira Gullar
carregando um saco de arroz pela rua,
indo pra casa!
O rapaz estava estupefato e deu à fala status de notícia.
Desenvolvi:
era branco esse arroz como os cabelos lindos dele?
Era integral esse arroz desse homem íntegro?
Fizera Ferreira um risoto?
Era para o almoço?
Cozinhara Ferreira um arroz simples
com companheiros de bife e feijão,
o trivial, mas tão bem-feito feito seu poema?
Feito o seu verso?
Ou se dera o reverso,
não será nem Ferreira quem cozinha
e terá ele com a cozinheira uma picuinha,
por ela não dar patamar de luxo à banalidade,
essa cozinheira daninha?
Por ela entender que o maior papel de um arroz
deve ser apenas o de ser guarnição? Ou não?
Será mesmo Ferreira quem cozinha
e da janela desse lar
vê a bunda
e o tempero da vizinha?
Ou estivera ele nem aí pra isso,
tivera, puto, é que interromper
um verso
pra fazer das compras
seu compromisso?
Ou será não fora nada
disso, apenas um homem,
um escritor,
um faminto humano,
fora humano ao
supermercado comprar o item
esquecido que fora meio rabiscado
ininteligível na nota anterior da compra?
Ou será que isso não conta?
Nada ele tinha pra comprar
e não sei o quê, meu dizedor de poemas antevira, sagaz…
Saíra, sei lá,
pra passear, e vira uma moça triste e tonta,
seguiu-a para adivinhar os segredos que ela não conta,
sua vida, sua rima.
Fora ver como sofria,
e se sofria, como reagiria na rua àquela dor,
e a seguira pelo caminho até em meio à mercearia,
atraído pela matéria da poesia, seu andor.
Seguiu, observou, olhou-a forte
no espelho da lágrima que não caíra,
ela sacou, ele disfarçou e, ora pois,
saiu com um arroz.

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