Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 124 | Ano 13 | Jun 2008
FRAGA

Uma das coisas que o cérebro faz com quem possui cérebro é condicionar a percepção. Sei disso porque com isso não me conformo, conforme informo às vezes. Não me acostumar é o meu costume.

Com todos os sentidos a mente procura – no outro, no horizonte, na escuridão – sinais palpáveis ou impalpáveis de que está bem situada, seja lá que zorra ou calmaria seja a situação. Rimas no ouvido, simetrias na paisagem, tons sur tons na natureza, tudo nos serve de acomodação mental. Pro desempenho do cocoruto, melhor seria desacomodá-lo sempre. (O inquieto M. C. Escher enunciou: “nós amamos o caos porque adoramos produzir ordem).”

Afora a matemática, a mais decisiva condicionante universal, há zilhões de condicionamentos espalhados pelaí, infiltrados nas cacholas. Tente ignorar a sucessão dia e noite. Pense em esquecer direita e esquerda. Ouse eliminar uma nota musical. Etc.

Dos tantos confortos cerebrais – coisas que a gente assimila pra questionar menos – uma das mais bem estofadas é o conceito do abecedário. É um sofazão pro raciocínio: além de bonita, a grafia da palavra é indutora e já ajeita, sonoramente, a seqüência alfabética nos miolos, ad eternum. Como se ABC fosse o único software compatível com o hardware neurológico. Por que não CBA? Bão, aí já vira sigla de alguma confederação brasileira atlética.

Impressionante: todos os alfabetos ocidentais são ordenados do mesmo modo. Tá certo, é herança da dominação latina e pronto. Talvez por isso não se consiga desconjuntar o alfabeto. O máximo de subversão é imaginar um abezedário. Piadinha graciosa com um simples twist, a antecipação do final. Recorrente na lembrança.

Lembro como se fosse há 58 anos: foram as aulinhas da tia Lena (tia mesmo, irmã mais moça da minha mãe) que implantaram as letras em mim, aos meus quatro anos de idade. Essa tia, que é o que se chama de analfabeta funcional, fez com que eu entrasse para a escola já como leitor, acostumadíssimo com o abecê. Nunca mais me livrei dele.

Agora, no curso desnaturado da velhice, essa minha tia desaprende um tanto do pouco que sabia. Aos poucos, vão-se vogais e consoantes, desorganiza-se a decoreba. À custa de alguns sintomas, o sistema de linguagem descondiciona-se. Em seu abezheidário, está liberada da obrigação de fazer sentido.

Enquanto isso, eu aqui, escravo da criação, tento desalfabetizar-me. Inútil. Não se pode criar nada tendo em mente um alfalhabeto.

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