Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 124 | Ano 13 | Jun 2008
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Infelizmente para quem gosta de teses enxutas, as coisas nem sempre têm uma simetria aproveitável. Não está provado que a terra usada para produzir etanol vai ser roubada da terra usada para produzir comida. As duas podem coexistir racionalmente – desde que haja racionalidade. Mas, mesmo improvável, a tese de que se deixaria de alimentar gente para alimentar carro não é absurda, levando-se em conta o domínio que o carro exerce em nossas vidas. Toda uma maneira de viver, toda uma civilização e uma cultura foram construídas pelo e para o automóvel. Que condiciona (e muitas vezes encurta) a nossa existência tanto quanto determinou o nosso desenvolvimento urbano, a nossa vida econômica e as nossas paisagens nos últimos cem anos. Não admiraria se, na crise terminal do combustível fóssil, escolher sacrificar a comida humana para ter o que dar ao tirano que manda em nós há tantos anos fosse a escolha lógica. Já que a alternativa seria trocar de vida.

A atual crise mundial de alimentos não é nem decorrência da produção crescente do etanol nem prelúdio do que virá quando a escolha entre gente e carro terá que ser feita, mas mostra como não se poderia contar com a racionalidade na hora da opção. Conspicuamente ausente na discussão sobre produção agrícola, subsídios etc. e a ameaça de faltar comida está a atuação das poucas grandes empresas que dominam o comércio de alimentos no mundo. Desde a chamada Revolução Verde dos anos 50, a Terra produz o suficiente para alimentar, literalmente, todo o mundo. Se não alimenta é porque as grandes multinacionais que ditam e controlam a distribuição no setor sempre fazem a escolha lógica. No caso a lógica capitalista que ignora a fome e opta pelo lucro. E escolhem outro monstro em vez da gente.

Para quem procura simetrias: as grandes multinacionais do alimento que ninguém menciona só têm como rivais no mundo crepuscular dos monstros que dominam a vida no planeta os grandes consórcios de petróleo. Era inevitável – pobres de nós – que os dois sistemas acabassem tratando, juntos, complementando-se, da nossa sobrevivência. Não há como enfrentá-los, muito menos apelando à razão. A alternativa seria trocar de mundo.

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