Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 125 | Ano 13 | Jul 2008
POLÍTICA

Por Paulo César Teixeira

Conforme o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a etimologia da palavra parlamento remete ao idioma francês, mais precisamente ao termo parler, que significa falar. Não por acaso, a conversa ao pé-do-ouvido e o acerto de pontos nos is em confiança fazem parte dos ritos que viabilizam e sustentam acordos políticos. Ao gravar em segredo e depois tornar público um diálogo entre quatro paredes com o ex-chefe da Casa Civil do Palácio Piratini, Cézar Busatto, o vice-governador do Estado, Paulo Afonso Feijó, feriu uma das regras básicas da política tradicional, que nem sempre se pauta pela ética. Mais que isso, ele acomodou na ante-sala do gabinete da governadora Yeda Crusius a crise aberta pelas denúncias de corrupção nas autarquias estaduais. Acuada, a tucana tenta salvar o mandato sacudido por sucessivas crises. Ao mesmo tempo, observa o vice impulsionar a candidatura de Onyx Lorenzoni, do DEM, à prefeitura de Porto Alegre, e quem sabe preparar terreno para apresentar-se ele próprio como candidato outsider à sucessão estadual em 2010.

A final, qual é a razão que motivou o vicegovernador a divulgar o relato de Busatto sobre a utilização ilícita de Detran, Banrisul e Daer para financiamento de campanhas políticas de partidos aliados, como PP e PMDB? Analistas políticos não costumam reduzir as escaramuças palacianas a uma luta entre o bem e o mal. Para Eduardo Corsetti, professor de Ciências Políticas da Ufrgs, Feijó age mais como lobista do que como político. “Ele tenta articular o interesse do segmento empresarial dentro da esfera do poder, ao invés de preocupar-se com o interesse público”. Já Carlos Arturi, chefe do Departamento de Ciências Políticas da Ufrgs, custa a crer que o vice-governador não tenha ambições políticas, como alega: “Seria bizarro se ele não as tivesse, depois de tudo o que aconteceu”. O cientista político Juliano Corbellini, da Ulbra, afirma que Feijó se posicionou como um player para a sucessão de Yeda em 2010. “Ele conseguiu projetar-se como personagem marcante junto à opinião pública. Mas perdeu a confiança do sistema partidário. Talvez tenha que pagar o preço do isolamento político”.

KANT EXPLICA – De fato, embora as pesquisas mostrem, em um primeiro momento, a aprovação da opinião pública à atitude de Feijó, a repercussão do fato ainda está longe de se esgotar. No imaginário popular, a divulgação da fita pode também soar como um ato de traição. E se levarmos em conta uma cultura política que valoriza o fio do bigode como garantia de cumprimento da palavra, ocultar um gravador no bolso do casaco pode equivaler a uma punhalada pelas costas. “Se Feijó enviasse a fita somente para o Ministério Público e o Tribunal de Contas, vá lá. Mas entregá-la para a oposição é dar um passo a mais”, comenta Arturi. Denis Rosenfield, professor do PPG de Filosofia da Ufrgs, vale-se de um princípio do filósofo alemão Immanuel Kant para defender Feijó: “No campo da política, tudo aquilo que não pode ser tornado público é injusto ou imoral”. Como se tratava de um diálogo entre agentes públicos em um local público, e não um bate-papo entre amigos, Feijó teria o dever de revelar o que ouviu. “Se você sabe de um ato ilícito, nada mais normal que registrar esse ato ilícito. E se tiver provas, tanto melhor. A imoralidade está no conteúdo do relato”.

No calendário eleitoral, os reflexos da atitude do vice poderão fazer-se sentir já na eleição para a prefeitura da capital gaúcha, em outubro. O beneficiário de sua imagem de político incorruptível é o deputado federal Onyx Lorenzoni, candidato dos Democratas (DEM), partido de Feijó (leia entrevista à pg 6). Contudo, a transferência de popularidade não é automática, como frisa Flávio Silveira, diretor do Instituto de Pesquisa Meta. O eleitorado ainda se prende mais à figura pessoal do candidato que às orientações partidárias. Conforme Silveira, o episódio da divulgação da fita reforçou a visão simplificada de que todos os políticos são corruptos, mentirosos e preocupados unicamente com benefícios pessoais na vida pública. “Contrapondo-se a essa idéia arraigada no senso comum, o eleitor quer o antipolítico, alguém que não compactue com o jogo político, pelo menos da maneira como ele vem sendo feito. A posição de Feijó vem sendo exatamente esta. Onyx está mais próximo da imagem tradicional do político e, além disso, teve participação lateral e coadjuvante nas denúncias de corrupção”.

Um chopp ao cair da noite

O alarde provocado pelo vicegovernador, de qualquer modo, pegou no contrapé um governo que tentava se recuperar de uma longa trajetória de crises, que começou antes mesmo da posse. Não custa lembrar que Yeda teve um começo de campanha dificílimo na eleição de 2006. Contratado para assessorá-la, o marqueteiro Chico Santa Rita abandonou a candidata por falta de pagamento ainda no primeiro turno e levou junto boa parte da equipe que fazia o programa de televisão. “Ela chegou ao governo apoiada por uma coalizão minoritária formada por PSDB e DEM, partidos que sempre foram pequenos no estado, porque disputam espaço com PP e PTB, legendas tradicionalmente fortes no Rio Grande”, observa Arturi. A busca de apoio parlamentar e a falta de quadros para suprir postoschave na máquina administrativa levaram Yeda a se abastecer de siglas como PMDB, PP e PDT, cujos indicados dividiam-se entre o compromisso com o governo e a perspectiva de suas carreiras pessoais na política, destaca Corsetti.

A primeira crise de Yeda com a base de apoio ocorreu em 28 de dezembro de 2006, ainda antes da posse, quando foi enviada à Assembléia Legislativa a primeira proposta de aumento de impostos, contrariando o discurso de campanha da candidata. Além da rejeição dos parlamentares, a tucana amargou a renúncia de dois secretários (os deputados Berfran Rosado, do PPS, e Jerônimo Goergen, do PP). Mal o governo havia iniciado, Yeda sofreu nova baixa, desta vez, o secretário de Segurança Pública, Enio Bacci, do PDT, que abandonou o cargo alardeando que havia corrupção no Detran. No final de 2007, a governadora perdeu mais uma queda de braço com a Assembléia para elevar as alíquotas de ICMS. Para domar a insubordinação da base aliada, convocou em janeiro deste ano nomes com maior trânsito junto aos parlamentares, como o ex-secretário estadual da Fazenda Cézar Busatto (PPS) e o ex-presidente da CEEE Delson Martini, para ocuparem, respectivamente, a Casa Civil e a Secretaria de Governo. Ambos acabaram exonerados. Busatto caiu na armadilha de Feijó e Martini foi citado em conversas grampeadas pela Polícia Federal entre envolvidos no escândalo do Detran. Antes, o secretário de Planejamento e Gestão, Ariosto Culau, já havia sido flagrado tomando chopp ao cair da noite em um shopping com o empresário Lair Ferst, indiciado no escândalo do Detran. Culau alegou que se tratava apenas de um encontro entre amigos, mas foi demitido.

Ninguém pode afirmar com certeza aonde a crise política, policial e judiciária vai desembocar, mas até a oposição mostra-se cautelosa quanto à hipótese do impeachment da governadora. “Se ficar comprovado que houve responsabilização do Executivo no achaque aos cofres públicos, aí sim, teremos que considerar essa possibilidade”, diz o deputado Adão Villaverde, do PT. Parece claro que os partidos apontados como favorecidos pelo financiamento ilícito de suas campanhas não têm interesse em ver o circo pegar fogo. “PMDB e PP não apostariam em uma crise agudíssima, porque ela abriria portas para incógnitas”, afirma Arturi. Se a governadora deixasse o cargo antes de completar metade do mandato, haveria eleição antecipada para a indicação do sucessor. Neste caso, aparentemente, o PT seria o único grande partido a se beneficiar. E se o impeachment viesse na segunda metade do mandato, ela seria obrigada a dar posse ao vice. Considerando o perfil extremamente conservador de Feijó, nem o PT apoiaria esta solução, analisa Arturi.

A confissão e o perdão

A crise política fez com que Yeda perdesse apoio até mesmo de aliados de primeira hora de sua candidatura ao Piratini. Um deles é o filósofo Denis Rosenfield, que admite sentir-se “frustrado” e “decepcionado” com a governadora. “Freqüentemente, ela adota uma postura arrogante, que não cai bem do ponto de vista da população. Quando tentou aumentar os impostos, deveria ter sido humilde, pedindo desculpas por haver mudado de idéia. A religião cristã inventou a confissão e o perdão para dar conta disso. Como ela não confessou, quem vai perdoar”?

O cientista político Juliano Corbellini foi um dos principais responsáveis pelo marketing da campanha de Yeda ao Piratini. Em entrevista à revista Voto, afirmou que o governo do estado “alterna comportamentos autistas com surtos psicóticos, politicamente falando, é claro. Ora parece viver em um outro mundo, ora entra em uma imensa ebulição”. Procurado pelo Extra Classe, ele mostrou-se mais comedido: “Como analista, constato que o governo tem enorme dificuldade de se estabilizar politicamente. Desde Collares (Alceu Collares governou o estado de 1991 a 1994), talvez seja o que amargue os piores índices de aprovação popular”. Ele entende que, embora Yeda tenha queimado grande parte de seu capital político-eleitoral, a fase mais crítica do incêndio já começa a ser debelada. “Logo, será preciso recolher o que sobrou entre os escombros”.

Antes de ajudar a eleger Yeda, Corbellini havia trabalhado no marketing da campanha de José Fogaça à prefeitura de Porto Alegre, em 2004. Apesar de fazer questão de ser identificado como analista político e não marqueteiro, o professor da Ulbra não descarta participar de outra campanha eleitoral. “Alguém vai me querer”. No meio político, tem-se como provável sua participação no marketing da deputada federal Manuela D’Avila, do PC do B, coligada com o PPS, na disputa pela prefeitura da capital gaúcha.

“A geração política de Busatto acabou”

Em entrevista ao Extra Classe, o candidato do DEM à prefeitura de Porto Alegre, Onyx Lorenzoni, afirma que a crise do governo Yeda marca o ocaso da geração de políticos gaúchos representada pelo ex-chefe da Casa Civil, Cézar Busatto.

Extra Classe – A luta contra a corrupção será uma bandeira do partido nas eleições municipais?
Onyx Lorenzoni – O combate à corrupção não deve ser uma bandeira de campanha. Esse é um posicionamento presente ao longo de toda a minha vida pública.

Extra Classe – A imagem do vice como figura pública que não se submete à política tradicional poderá ser transferida para os candidatos do partido?
Lorenzoni – A sociedade gaúcha aplaudiu a atitude do vicegovernador. Quase 70% apoiaram o gesto dele. Porém, acredito que governadores e vices não têm que estar em campanha. O vice tem que cuidar do governo do estado.

Extra Classe – Qual é a sua avaliação do futuro do governo de Yeda?
Lorenzoni – Eu sempre olho para as crises para ver o que há de bom nelas. O que se tem de bom é que a velha política que o exsecretário Cézar Busatto descreveu com crueza e a qual ele representa acabou. A prática e a geração política de Busatto acabaram.

Comportamento errático da economia

A crise política atrapalhou o plano da governadora de construir uma agenda positiva a partir do crescimento de 7% na economia gaúcha em 2007. Depois de atrasar sistematicamente o pagamento dos servidores no primeiro ano de governo, Yeda pretendia inaugurar uma nova fase recheada de boas notícias. Para o economista Ricardo Franzoi, coordenador técnico do Dieese/RS, o crescimento do RS em 2007 se deve à alta dos preços de commodities no mercado internacional, principalmente a soja, e à expansão do mercado interno do país. “Apenas na indústria metalúrgica, ligada ao setor automotivo, foram criados 18 mil novos postos de trabalho no estado, incremento de 20% em um ano”. Já o economista Alfredo Meneghetti Neto, da PUCRS, afirma que Yeda soube aproveitar a “janela de oportunidades”: “Como gestora política, ela tem influência ao manter incentivos fiscais para facilitar a entrada de capital estrangeiro”. Esta política fiscal, no entanto, contribui para que o Rio Grande do Sul continue em penúltimo lugar entre os estados brasileiros, atrás apenas de Alagoas, na relação entre arrecadação de ICM e PIB, de acordo com Franzoi, do Dieese/RS.

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