Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 125 | Ano 13 | Jul 2008
IDEIAS

Adão Villaverde

O desmonte e o achaque a órgãos públicos do estado, evidenciados pelos recentes escândalos, não param por aí. Eles repercutem também na desestruturação da máquina pública em áreas tradicionais como Saúde e Educação, chegando também ao importante campo da pesquisa. Pois recentemente o Legislativo estadual foi instado a ser mediador junto ao Executivo da tentativa da comunidade científica/tecnológica de reverter o quadro desastroso a que chegou nossa Fundação de Amparo à Pesquisa do RS (Fapergs).

Com seu Conselho Superior incompleto e acéfala do ponto de vista do comando da instituição, a carência de repasses dos recursos do Tesouro fala por si. Em 2001 os repasses significavam 27% da fatia constitucional; em 2005 caíram para 15% e agora em 2007 desceram a menos de 3%, revelando o verdadeiro abandono da área de pesquisa, em plena era do conhecimento.

Ora, em setores nos quais não se faz praticamente nada sem a intervenção do Estado, que detém as maiores possibilidades de aplicação de recursos, retirá-los de uma área vital como a Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) é condenar-nos a viver em um deserto de investimentos. Propor que passemos a conviver nessa penúria de verbas públicas na área é sugerir que nos conformemos com uma realidade, também desértica, em pesquisa científica, tecnológica e inovação.

Qual o significado de tudo isto? Se pensarmos que Ciência e Tecnologia se resume àquela imagem tradicional de um abnegado e solitário pesquisador diante de seu microscópio, o significado das ações governamentais talvez possa parecer pequeno. Entretanto, se abandonarmos essa representação imaginária um tanto lírica e atentarmos para o fato de que o desenvolvimento científico-técnico de um país é, antes de tudo, uma obra coletiva e plural, e não solitária e singular, perceberemos também as profundas conseqüências econômicas e sociais quando o estratégico campo da pesquisa fica absolutamente carente de políticas e recursos.

Quando isto ocorre, instaurase uma verdadeiro “darwinismo” entre pesquisadores sobre os parcos recursos do setor, devendo sobreviver, como na selva, apenas os mais aptos e fazendo com que a Fapergs deixe de estimular os pesquisadores iniciantes que, aliás, tem sido seu papel primordial.

E áreas importantes e fundamentais de pesquisa, reconhecidas nacional e internacionalmente, com os níveis escassos de investimento, simplesmente poderão desaparecer para o “continente” da Ciência e Tecnologia. Pois como imaginar que a ausência de políticas e de repasse de recursos possam sustentar os patamares e os referenciais a que chegaram no RS, neste campo?

Não fosse a política e os recursos federais aportados no Estado, e a dedicação da nossa comunidade de pesquisadores, não nos permitiríamos vislumbrar ainda algum otimismo na sobrevivência da Ciência e da Tecnologia. Mas a pergunta que fica é: até quando isto perdurará?

Como se fosse uma “moderna Atlântida”, o legendário continente desaparecido no mar, infelizmente e de forma irresponsável, a Ciência e a Tecnologia poderão desaparecer ou desacumular no estado. É o paradoxal espaço que se perde precisamente nos lugares que mais necessitam ser encontrados, sem deixar sequer os traços de uma legenda, como sua ancestral marítima.

A sociedade gaúcha e suas comunidades científicas e tecnológicas, centros de pesquisa e universidades estão sendo chamadas a iniciar uma resistência, impedindo que conduzam à submersão o que levou muitos e longos anos para se construir.

Somos nós, agora, que devemos manter iluminados os significados primordiais de desenvolvimento e de progresso que existem dentro dos conceitos de Ciência e Tecnologia. Pois o governo gaúcho, lamentavelmente, já os abandonou.

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