Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 126 | Ano 13 | Ago 2008
FRAGA

A analogia é oportuna e pertinente – por causa dos impertinentes que trafegam descontrolados nos ouvidos alheios.

Começa que não são poucos os embriagados de si mesmos a nos dirigir a palavra: os egocêntricos, os cabotinos, os vaidosos, os narcisistas, os que se adoram ouvir, os autoritários, os intrometidos, chatos etc. Todos devidamente habilitados a provocar acidentes nas conversas, pelo alto teor de eulemia em seu sangue.

Essa gente sem freio na língua pode causar danos variados nos ouvintes, seja aos gritos ou sussurros. Dada a natureza do falante – conversador fiado, narrador de proezas, teorizador contumaz, discursador ideológico, colecionador de balelas, impigidor de conceitos etc – os riscos para os tímpanos podem ser agrupados, conforme as alterações na percepção do palrador, em diversas categorias de infrações coloquiais. Assim:

Excesso de velocidade: o interlocutor, ao volante da sua personalidade movida a auto-elogio, dispara monólogo afora, desrespeitando as regras do diálogo civilizado. Em geral atropela a paciência dos atentos.

Ultrapassagem perigosa: como um papagaio à vontade num bólido, avança por assuntos inconvenientes, como a intimidade de quem o ouve.

Derrapagem: aqui os ferimentos auditivos acontecem em decorrência de manobras incompetentes com a língua portuguesa, com desastres recorrentes em concordância, pronúncia e regência.

Passar no sinal vermelho: apesar do ambiente inadequado (num velório, num asilo, numa creche), o loquaz usa vocabulário escandaloso e se manifesta em altos brados.

Circular na contramão: colisão frontal entre a idéia exposta por alguém e seus senões teimosos e sem sentido, provocando uma terrível destruição dos mais delicados e sensatos argumentos.

Estacionar em área proibida: obsessão por tema único, com verbalização monótona e monocromática.

Não sinalizar entrada à esquerda ou direita: no meio de um debate político, intervém sem pedir licença e questiona sem embasamento, além de emitir opinião disparatada, prejudicando a continuidade do evento.

Buzinar a toda hora, em qualquer lugar: sempre que o nível do papo se eleva no conteúdo, ele ergue o que pode – a voz. Esganiçado como é, cala a audiência por decibéis.

Um palavrômetro faria um bem danado no trânsito das idéias. Apanhado em flagrante, o mau condutor de assuntos poderia ser multado do jeito que mais sofre. Permanecer em silêncio enquanto durar o papo.

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