Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 127 | Ano 13 | Set 2008
ENTREVISTA | ALICIA FERNÁNDEZ

Por Gilson Camargo

Alicia Fernandez

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

A psicopedagoga argentina Alicia Fernández tornou-se uma referência para psicólogos, pedagogos e psicopedagogos de diversos países. Suas abordagens – em livros e palestras – sobre autoria do pensamento e modalidades do conhecimento enfrentam as causas mais comuns dos traumas infantis e põem em xeque as relações entre professores, pais, instituições de ensino e poder público. Alicia mantém permanente intercâmbio com profissionais de Psicopedagogia brasileiros desde os anos 90, quando criou o Espaço Psicopedagógico de Buenos Aires (Epsiba), centro de referência que, devido à troca de experiências com profissionais e estagiários brasileiros, foi rebatizada de Espaço Psicopedagógico Brasil e Argentina. Em 40 anos de atuação completados em julho deste ano, ela já publicou no Brasil os livros A inteligência aprisionada, A mulher escondida na professora, Os idiomas do aprendente e Psicopedagogia em psicodrama (Artmed); e O Saber em Jogo (Vozes). Momentos antes de participar do Simpósio de Educação A autoria no processo de aprendizagem e a construção de uma escola inclusiva, promovido pelo curso de Pedagogia do UniRitter, em Canoas, de 15 a 17 de julho, ela falou ao Extra Classe sobre as experiências vivenciadas no atendimento psicopedagógico a crianças e suas famílias. “Vivemos numa sociedade hiperativa e desatenta às necessidades básicas e à singularidade das pessoas. No mundo todo há uma quantidade absurda de crianças sendo medicadas, tomando drogas para que prestem atenção”, afirma. Alicia está trabalhando em dois novos livros, La atencion atrapada e outro, ainda sem título, que vai abordar as primeiras escritas, em que investiga onde os humanos aprendem a escrever e a ler.

Extra Classe – A senhora afirma que a sociedade da informação também é a da falta de autonomia do pensamento. Por quê?
Alicia Fernández
– A autoria do pensamento tem hoje uma importância muito maior do que no passado porque a sociedade atual exclui cada ser humano, inclusive professores e alunos, de sua característica mais singular: a possibilidade de pensar por conta própria, de ser autor dos seus próprios pensamentos. Isso não tem nada a ver com propriedade privada. Autor é aquele que faz, diz, que se faz responsável por aquilo que produz e pela posição que assume diante dos demais.

EC – Como o professor pode estimular o pensamento autônomo?
Alicia
– Com poucas palavras. Pode possibilitar essa autonomia necessária, primeiro, promovendo as perguntas necessárias. Os professores pouco trabalham com a questão das perguntas, esquecem que de uma pergunta surge outra e mais outra e ele pode, justamente, conseguir que cada um de seus alunos lhe resulte‘ interessante’, torne-se nem melhor nem pior, mas alguém interessante: digno de interesse. A melhor intervenção é a mais simples. O que interessa não é principalmente o que o aluno falou, mas o fato de ele se expressar. Aí abre um espaço entre professor e aluno em que as coisas se tornam ‘pensáveis’, não apenas ‘pensadas’.

EC – O que ele precisa para atender bem o aluno?
Alicia
– O professor também precisa ser escutado, pois é ele quem recebe, diariamente, todos os problemas da sociedade. As angústias das famílias e as demandas da sociedade são despejadas sobre os professores não só pelas crianças que estão diante dele. O professor está sozinho diante de 40 alunos e precisa fazer mais do que apenas dar conteúdo. Por isso, precisamos saber quais as angústias desse professor. Trabalhamos muito com técnicas psicodramáticas, que trazem à tona essas angústias. Eles não precisam alguém de fora dizer: vocês têm que fazer isto e isto… É importante organizar grupos de reflexão e de escuta que dêem suporte para que o professor possa ir além dos conteúdos. Precisam de alguém que saiba escutar.


EC – Como a sociedade impede as pessoas de pensar por conta própria e qual o papel da Psicopedagogia para estimular essa autonomia?
Alicia
– Para se promover possibilidades de aprendizado é preciso de tempo. Nossos diagnósticos psicopedagógicos precisam desse tempo, não se encontra a resposta rapidamente. É plausível que diagnósticos feitos com pressa com vistas a resultados imediatos tratem as crianças muito ativas, muitos interessantes, que estão além dos conteúdos, do mesmo modo que alguém que tem um problema psicológico, neurológico ou psicopedagógico. Não podemos homogeinizar tudo. Devemos atender aqueles que não se interessam, não se entusiasmam, nem estão investidos do desejo de brincar, de aprender e de interagir. Estamos preocupados com as drogas ilegais, mas eu penso que devemos começar a nos preocupar com as drogas legais, porque são aquelas que nós estamos difundindo. Temos uma sociedade dos adultos que não se pergunta, que não se dá tempo de escutar o outro.

EC – A falta de critérios no diagnóstico seria uma razão para o uso indiscriminado de medicamentos por crianças em idade escolar?
Alicia
– Vivemos uma epidemia de supostas síndromes que se colocam sobre as crianças, sobre os adolescentes. São as síndromes de déficit de atenção, de hiperatividade. Temos uma quantidade absurda de crianças sendo medicadas, tomando drogas para que prestem atenção. Santiago do Chile, Buenos Aires, São Paulo, são cidades onde temos pesquisa. Nas grandes cidades, nas metrópoles dos Estados Unidos, se dá esse fenômeno muito grave. Temos escolas com 20 crianças de seis, sete anos de idade sendo medicadas para “curar” essas supostas síndromes. Nos meus livros eu venho denunciando isso: estamos numa sociedade hiperativa e desatenta, que medica aquilo que produz. Um mundo adulto hipe-rativo e desatento às necessidades básicas, à singularidade das pessoas. É claro que as crianças e os jovens são as primeiras a externar as problemáticas dos adultos. Em vez de nos perguntar o que está acontecendo com nossas crianças, com nossos adolescentes, estamos dando remédios para essas crianças ficarem quietinhas, sentadinhas em frente à televisão e ao computador, amarradas com cordas invisíveis, com uma camisa de força química.

EC – Que iniciativas cabem aos pais e aos educadores para reverter essa tendência?
Alicia
– Os pais são os primeiros ensinantes. Mas eles também estão submetidos a todas essas características da sociedade. Por isso, a escola não pode delegar aos pais toda a responsabilidade como se eles fossem os únicos responsáveis. Há, entre a escola e as famílias, os profissionais psicólogos e psicopedagogos. Mas acontece um círculo de queixas que é muito nocivo. A escola se queixa da família, a família se queixa da escola, os psicólogos se queixam da família e da escola e todos colocam o problema em cima da criança. Todos têm o seu grau de responsabilidade. O professor, muito mais que um transmissor de informações, é um agente subjetivante: é um dos construtores do sujeito humano. Tem uma grande possibilidade de colocar aquela criança diante de outras experiências, diferentes daquelas que a gente têm encontrado, experiências que têm vínculos ‘ensinantes’ e ‘aprendentes’ diferentes da família. Se você tentar lembrar de uma situação na escola que o tenha marcado muito, vai lembrar do professor e não do conteúdo escolar. O ser humano nasce inteligente, mas a inteligência se constrói na relação com os outros, se dá à medida que os adultos consideram a criança, acreditam que ela aprenderá. Não aprendemos a andar porque temos pernas, mas porque outras pessoas nos ensinaram, estimularam e acreditaram que iríamos andar. As palavras crer e criar têm a mesma raiz etimológica.

EC – No seu livro A mulher escondida na professora, a senhora trata da questão de gênero na Educação e diz que a maioria dos meninos tem problemas de aprendizagem. Por quê?
Alicia
– Esse livro comecei a escrever a partir de muitas circunstâncias, mas de uma que me chamava muito a atenção: a maioria das crianças que chegavam nas consultas era meninos. Numa escola, a maioria dos docentes é mulher. Decidi pesquisar o que estava acontecendo para provar que o aprendizado é uma questão de identificação. Ocorre que na escola os meninos encontram como figura identificatória uma maioria de mulheres. Com isso, têm que fazer um trabalho muito complexo para gostar de aprender, investir dignamente. O aprender vai deixando de ser interessante. Já os problemas de aprendizagem das meninas ficam escondidos porque, culturalmente, na maioria dos países, ser uma boa aluna é ter boa letra, ser recatada, não se manifestar. Os obstáculos são diferentes. O homem, na medida em que assume a cultura da agressividade masculina, fica aprisionado. Tem a obrigação de ser aquele que, mesmo sem estudar, tem de triunfar.

EC – A atenção aprisionada (La atención atrapada, livro ainda não lançado) fecha a trilogia com A mulher escondida na professora e A inteligência aprisionada. A senhora também está escrevendo um livro sobre experiências das crianças com a escrita. Quando e onde o ser humano aprende a escrever?
Alicia
– O primeiro livro Inteligência aprisionada dá conta de uma proposta de trabalho interdisciplinar com as famílias, que analisa a própria família e os vínculos entre os irmãos. Essa modalidade de diagnóstico envolve um trabalho além da clínica, junto aos hospitais públicos gerais de Buenos Aires e da região metropolitana. É interdisciplinar e interinstitucional. Nós entendemos que não é a criança e a família que devem ir de cá para lá, de um especialista a outro. O professor encaminha ao médico, o médico ao fonoaudiólogo, este ao psicólogo… Estou trabalhando em dois novos livros, La atención atrapada e outro, La escritura en la piel, que vai abordar as primeiras escritas, ou seja, investiga onde os humanos aprendem a escrever e a ler. É a questão do corpo. O tema da primeira infância é fundamental. É a fase em que se aprender a escrever tem a ver com os primeiros aprendizados, com a inserção no vínculo corporal. O primeiro lugar de escrita é a própria pele, onde ficarão para sempre as marcas das carícias ou dos golpes recebidos.

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