Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 128 | Ano 13 | Out 2008
ECONOMIA

José Antônio Alonso

Esta geração tem assistido um conjunto de mudanças econômicas nas últimas duas décadas que tem sacudido o mundo da produção e das finanças, com reflexos dolorosos para a vida das pessoas. O primeiro movimento ocorreu no bojo da reestruturação produtiva e da globalização dos mercados, especialmente o financeiro, que atingiu patamares estratosféricos. Este movimento tem, na sua essência, uma forte inspiração neoliberal, difundida de forma avassaladora pelo Consenso de Washington. A ordem era desregulamentar os mercados, liberalizar o comércio e as relações internacionais, reduzir o tamanho do Estado, privatizar tudo o que fosse possível. Este receituário foi adotado com mais intensidade nos paises da periferia mundial do que nos paises centrais.

O resultado global foi uma expansão do comércio mundial em que poucos ganharam muito, alguns países tiveram oportunidade de ganhar, mas muitos continuaram na mesma situação anterior de dependência e pobreza. Entre os países que aproveitaram a expansão da economia global, alguns descolaram-se da categoria em desenvolvimento, sendo promovidos a emergentes. Mas, o capitalismo ainda é aquele, como diz Antônio Barros de Castro, que funciona eivado de contradições e crises em diversas escalas. É o que o mundo está assistindo neste momento com as notícias da crise, que tem como epicentro o sistema financeiro americano. Ela tem caráter estrutural, já era esperada pelos especialistas, mas não nesta dimensão.

Nos últimos 12 meses, o FED (Banco Central norte-americano) instituiu o seu mais amplo programa de socorro a instituições financeiras, desde a Grande Depressão, com a finalidade de evitar um colapso de proporções sistêmicas. O que mais preocupa os analistas é a falta de informações seguras a respeito do tamanho do “rombo” provocado pela ação livre de gigantescas empresas hipotecárias, seguradoras e bancos de investimentos que operaram nas últimas décadas num ambiente desregulamentado. A sensação que temos é de que ninguém sabe em que estágio da crise estamos, se no começo, no meio ou no final. O que se tem certeza é que a crise financeira contaminará o setor produtivo, provocando, no mínimo, um prolongado período de baixo crescimento, e no máximo, nem é bom pensar.

O que dizem os neoliberais neste momento? Quase nada, apenas têm a “coragem” de convocar o Estado (a sociedade) para pagar a pesada conta que certamente recairá, direta ou indiretamente, sobre milhões de pessoas inocentes.

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