Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 131 | Ano 14 | Mar 2009
ENSINO PRIVADO

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Arte: Luciano Lobelcho

Arte: Luciano Lobelcho

O acompanhamento das demissões ocorridas durante os meses de dezembro de 2008 a fevereiro de 2009 nas instituições do ensino privado vem demonstrando que o ponto fraco das instituições está na Gestão de Recursos Humanos. Nas 1.831rescisões registradas pelo Sinpro/RS em todas as regionais, são recorrentes as queixas pela forma como foi feito o processo demissional, com casos de exposição e constrangimentos sofridos pelos docentes no período que antecede a dispensa, a falta de indicação de que o trabalho não vai bem, avaliações sem critérios claros feitas pelas direções e ainda o descarte de professores mais velhos. A maior parte, 1.028 rescisões, foram registradas na Região Metropolitana de Porto Alegre.

“As instituições de ensino omitem-se de orientar o trabalho do professor durante o ano e quando o fazem, normalmente, não tem o objetivo que esta avaliação seja diagnóstica e sim punitiva”, avalia Cecília Farias, diretora do Sinpro/RS.

Diante de quadros como estes, a psicóloga Eliége Oliveira, especialista em Psicoterapia, orienta os professores a mudar o foco da situação para que os reflexos na autoestima e nos futuros trabalhos não sejam tão danosos. “A pessoa tende a se questionar muito e buscar os erros em si mesma, mas é preciso refletir a partir da instituição. O professor hoje é cobrado dentro e fora da sala de aula, muitas outras questões podem estar envolvidas e motivar a demissão”, explica a psicóloga. Alguns professores conversaram com o Extra Classe sobre suas demissões. Os nomes foram omitidos para preservar os profissionais.

Educação Básica
CENTRO PASTOR DOHMS – Os docentes demitidos da Escola Nossa Senhora de Fátima, que passou a integrar o Centro de Ensino Médio Pastor Dohms, relataram que no meio do ano de 2008 foram aplicados pelo Dohms testes psicológicos nos professores com cem questões objetivas e quatro dissertativas, além de elaboração de autobiografia. No entanto, nunca houve um retorno destes testes, nem mesmo foram esclarecidos os critérios e objetivos. O retorno dado a alguns foi a demissão, sem mais explicações. “O teste deixou o grupo de professores ansioso e com medo”, conta uma professora.

MÃE DE DEUS – Os relatos foram de total surpresa diante da demissão, sem nenhum indicativo por parte da direção sobre o andamento dos trabalhos. As demissões ocorreram logo após confraternização de final de ano, em que muitos foram convidados a colaborar de forma voluntária. “Eu não fui obrigada, aceitei o convite com prazer. Mas fui supersugada e exposta pela escola um dia antes de ser demitida. Esta superexposição poderia ter sido evitada”, fala uma professora. Também não houve alegação para a demissão, apenas agradeceram os serviços prestados. A professora participou de reuniões de planejamento para 2009.

MARISTA IPANEMA – Na escola, segundo os professores demitidos, sempre houve acúmulo de trabalho, reuniões e convocações organizadas com pouca antecedência. Outro ponto destacado foi a carga de trabalho administrativo como a digitação de notas e presenças e organização de seminários internos. No meio do ano, os docentes foram chamados para uma reunião pedagógica em que a coordenação apresentou uma pesquisa feita com os alunos do Ensino Médio com resultados como: “O professor da escola não sabe dar aula“, “O professor da escola é incompetente”. Este acúmulo de situações levou a uma das docentes demitidas a desistir da carreira. “Estou em pânico. Não quero mais saber de sala de aula, mesmo tendo recebido propostas”, desabafou.

Ensino Superior

Nas Universidades o quadro de demissões mostrou que os profissionais têm, em sua maioria, mais de 15 ou 20 anos de trabalho na mesma instituição. Professores da PUCRS, por exemplo, apontam questões que consideram críticas na Gestão Universitária: o poder dado aos coordenadores de curso, que são cargos de confiança, e a mudança constante de horários das disciplinas, que prejudica alunos e docentes.

“Durante os últimos anos, minhas funções foram trocadas diversas vezes sem nenhuma comunicação formal”, diz uma professora demitida após 30 anos de casa. “Fiquei um mês sem ser chamada para reuniões e também sem ter resposta dos superiores. A demissão veio após uma formatura em que eu era paraninfa”, conta outra docente. Um terceiro professor, há mais de 30 anos na instituição, disse ter sofrido assédio moral por parte da coordenadora de seu curso e avaliou como “desumano” o tratamento dado aos professores em final de carreira. A inexistência de banco de horas também foi outro problema relatado pelos profissionais.

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