Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 132 | Ano 14 | Abr 2009
CULTURA
MEMÓRIA

Sem receber nenhuma manutenção há 50 anos, desde que foi pintada, o desgaste natural da obra é incrementado por infiltrações das chuvas pelo telhado, além de urina e fezes de morcegos que habitam o forro
Por Naira Hofmeister

O improvável aconteceu: justamente na escola onde professores e alunos são artistas, três obras de arte estão se deteriorando à espera de restauração. A maior delas é um mural que mede 9,3 x 2,9 metros e ocupa toda uma parede no oitavo andar do Instituto de Artes da Ufrgs. A pintura está lá desde 1958, quando seu autor, Aldo Locatelli, presenteou a instituição pelo seu cinquentenário. Nela estão retratados professores que fizeram história no IA como Fernando Corona e Tasso Corrêa e suas alunas, o principal público da Escola de Belas Artes no seu nascimento.

O pintor deixou a obra “inacabada” propositalmente. O mural mostra três diferentes fases da pintura: os esboços e a intensidade que duas camadas de tinta conferem à obra. “É como se a própria pintura fosse uma aula”, elogia o coordenador do Núcleo de Painéis e Murais e presidente do Centro Acadêmico do IA, Alejandro Ruiz.

Meio século depois, já não é possível diferenciar as distintas fases do mural. Sem nenhuma manutenção há cinquenta anos, as tintas estão desbotando e algumas figuras já estão completamente apagadas. Pior. Foram instaladas tomadas e fios de eletricidade na parede e algumas camadas de reboco precisaram ser colocadas sobre os buracos abertos.

Nos últimos anos, um vazamento no telhado provocou manchas na camada pictórica e os habitantes do forro – os morcegos – depositam excrementos que estragam ainda mais a obra.

“É lamentável”, desespera-se o líder estudantil. Ele e seus colegas chegaram ao ponto de distribuir guardanapos através de um conduto que fica na parte superior da obra para tentar minimizar o problema. Mesmo assim, os rostos das alunas de Fernando Corona estão manchados pela água que escorreu.

DINHEIRO – Há um ano a direção do Instituto de Artes conseguiu que a Reitoria da Ufrgs liberasse R$ 60 mil para restaurar o mural. Tintas e pincéis foram comprados e a professora Lenora Rosenfield se disponibilizou a comandar o processo gratuitamente. Para a execução, seriam selecionados bolsistas entre os próprios estudantes do IA. Mas até agora ninguém colocou a mão na massa.

“Não queremos começar a restauração antes de darmos uma solução definitiva para o telhado”, justifica o diretor do IA, Alfredo Nicolaiewsky.

A cobertura do IA é original – tem portanto, 66 anos – e durante esse tempo todo recebeu pequenos reparos. “Alguns telhados estão num estado assustador”, alerta.

O diretor garante que um edital já está sendo preparado e que a licitação para a reforma do telhado deverá acontecer logo. No entanto, ele não precisa o prazo. “É uma obra cara, que envolve uma burocracia danada antes de ser iniciada”, lamenta.

Quanto mais o tempo passa, pior fica o estado do mural de Locatelli, já que as infiltrações são as maiores causadoras dos danos à camada pictórica. “Mas não é tinta que está descolando, é a própria parede”, revela a restauradora, professora Lenora Rosenfield.

DURABILIDADE – Aldo Locatelli não deve ter imaginado que o seu presente para o Instituto de Artes pudesse um dia ficar no estado atual. Talvez prevendo uma manutenção constante por parte dos alunos, o pintor não preparou a parede da maneira mais adequada.

Geralmente em murais utilizava-se a técnica do afresco, que é a pintura sobre a argamassa molhada, que lhe confere maior durabilidade. “Locatelli fez essa obra a seco, por isso ela é frágil e menos durável”, aponta Lenora.

Mesmo corrigindo a infiltração, será necessária uma avaliação periódica para conservar o mural. “A cada dez anos, imagino. Há um envelhecimento natural que deve ser considerado”, calcula a professora.

À ação do tempo associa-se o fato de o espaço que abriga a obra ser atualmente uma divisória de sala de aula. Não há climatização e o sol incide diretamente sobre o mural. “Há muito movimento e, por mais que os alunos cuidem, o contato direto existe”, avalia.

Um outro detalhe. O local atualmente é uma sala de aula de música. Como apenas os estudantes de canto, piano, sopros e regência utilizam a sala, a maioria absoluta dos aspirantes a artistas plásticos não tem nenhum contato com a obra. “Mais de 90% dos alunos desconhecem que ela existe”, assegura Ruiz.
Novela do prédio novo

Expor o mural para todos ou retirar os alunos de música da sala onde ele está é um problema insolúvel a curto prazo. “Precisamos ocupar porque nos falta espaço físico”, justifica Alfredo Nicolaiewsky.

O prédio do Instituto de Artes foi inaugurado na década de 1940 e a previsão é que tivesse o dobro do espaço. A instituição não teve recursos para ampliar. Por isso, a capacidade do IA no projeto era de 300 alunos. Hoje são mais de mil.

E a partir da execução do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), até 2014 serão pelo menos mais 200. Além de ampliar as vagas nos três cursos atuais – teatro, música e artes visuais – o IA deve oferecer ênfase em História da Arte já no vestibular de 2010.

“Queremos deixar claro que sem um novo prédio não teremos condições para isso”, salienta o diretor da instituição.

Desde a década de 80, se debate uma nova sede para o Instituto de Artes. Durante anos se falou em levar os cursos para o prédio da antiga Medicina, na esquina das ruas Sarmento Leite e Luiz Englert. Depois de uma restauração concluída em 2007, o casarão histórico passou a abrigar o curso de Biomedicina, que deve se mudar assim que sua sede definitiva no Campus da Saúde ficar pronta.

Durante 2008 chegou-se a anunciar que o novo endereço do IA seria o campus Olímpico, no bairro Jardim Botânico. Mas a Escola Superior de Educação Física (Esef) também tem problemas em compartilhar o espaço.

Através de sua assessoria de imprensa, a Reitoria informa que está mobilizada para solucionar o impasse, mas não detalha as possibilidades. “A Ufrgs ainda não tem uma definição clara sobre o assunto”, limita-se a informar o Secretário de Comunicação Social, Flávio Porcello.

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