Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 133 | Ano 14 | Mai 2009
FRAGA

Não se sabe como a ONU e a OMS, duas instituições reconhecidas por idealizarem o mundo em que vivemos (uma através do impossível apaziguamento universal e outra por meio de uma inalcançável saúde mundial), ainda não cogitaram, juntas, de um censo daquilo que mais usam em seus teimosos propósitos: as palavras.

Antes que o projeto pareça delírio, melhor justificar a ideia: se viéssemos a saber a dimensão dos estoques de vocabulário em todas as línguas e dialetos, talvez se conseguisse melhorar as chances dessas empreitadas linguísticas pelo bem da humanidade.

Parta do princípio que estamos todos perdidos numa mesmice, um emaranhado de palavras desgastadas, chavões impostores, clichês imprestáveis. Há muito as palavras de ordem se desordenaram, perderam tanto o sentido quanto a eficácia. Daí o fracasso dos discursos de incentivo à paz e da fraqueza da orientação ao modo de vida saudável. E fica-se nesse redemoinho sem fim, sem reparar nos milhões de palavras ainda nem tentadas nessas negociações utópicas.

Por isso urge uma contagem das palavras disponíveis no planeta.

Seria a esperança de se encontrar termos invictos e verbetes convictos, livres dos cacoetes, fora das conversas-fiadas, distantes das ladainhas. Palavras virgens em seu potencial argumentativo, com impacto para influir, convencer e decidir. Avalie a riqueza oculta em centenas de idiomas: quantas palavras não anseiam uma oportunidade para expor a força da sua loquacidade por uma causa nobre? Temos que ir atrás delas e verificar sua habilidade verbal, sua energia expressiva.

Para este monumental levantamento, não basta, porém, burocratizar a busca. Senão, bastaria reunir todos os dicionários e enciclopédias já publicados e contabilizar o imensurável volume de palavras catalogadas. Não. Este censo precisa ir de boca em boca, coletar palavras insabidas, impronunciadas, indisseminadas.

Seria um esforço descomunal, onde equipes espalhadas pelo mundo iriam conferir quantas palavras cada um dos 7 bilhões de falantes dispõe. No final, a totalização dos acervos individuais nos mostraria o real tesouro vocabular. Imagine a contribuição de um simples dialeto, com uma única palavra, de serventia exata, que conclame sem apelar para lemas. Calcule o benefício de um só monossílabo de sinceridade avassaladora. O que este censo pode obter é um novo senso de linguagem.

Ah, a proposta parece inviável? Sei, só utilizei palavras manjadas.

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