Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 133 | Ano 14 | Mai 2009
ENSINO PRIVADO
ARTIGO

Marcos Júlio Fuhr

A tarde da sexta-feira, 17 de abril, representou um marco na história da Ulbra com repercussões em todo o meio educacional e no conjunto da sociedade gaúcha e brasileira. O senhor Ruben Becker, horas antes da reunião extraordinária do Conselho da Celsp, mantenedora da Ulbra, que certamente o destituiria do cargo de reitor, renunciou ao comando da instituição que criou e dirigiu durante os 37 anos de sua existência, mesmo tendo anunciado 48 horas antes que dela só sairia morto.

A saída de Ruben Becker surgiu como reivindicação dos professores na greve de 2008, ganhou a adesão dos funcionários da saúde , dos técnico-administrativos, dos alunos e, finalmente, também dos políticos gaúchos e do ministro da Educação, Fernando Haddad. Na esteira da revolta da comunidade universitária, a crise da Ulbra foi ganhando espaços cada vez maiores na imprensa e com fortes questionamentos ao silêncio do reitor.

O “Fora Becker!” foi retumbante e ecoou nos campi da instituição, ganhou as ruas e finalmente animou um segmento da Igreja Luterana e da Celsp de Canoas à rebelião e à articulação de uma alternativa que precisou ainda derrotar um candidato do status quo. O Sr. Ruben Becker pretendia, ao sair formalmente, continuar mandando nos bastidores. A estratégia não deu certo. A maioria dos membros votantes da Celsp finalmente havia esgotado sua tolerância às artimanhas, às espertezas e à truculência da família Becker. As vaias, refrões e apupos ao filho do reitor, na saída da sede da Celsp, na noite daquela sexta-feira, dia 17 de abril, eram a expressão evidente do final de uma dinastia.

A saída do Sr. Becker do comando do Complexo Ulbra não representa uma vitória apenas dos ativistas do intenso processo de mobilização que marcou a primeira quinzena de abril na Universidade. Representa, também, a derrocada de um ícone do autoritarismo, gestado nos tempos em que este hegemonizava a sociedade brasileira e que, graças à conivência de amplos setores políticos e empresariais, sobreviveu por um longo período ao final da conjuntura que lhe deu origem.

Descaso aos direitos dos professores e desrespeito à categoria, sempre fizeram parte do estilo Becker de gerir a Universidade. Em um episódio emblemático ocorrido há mais de 20 anos, única ocasião em que se dignou a receber o Sinpro/RS, ante a reclamação do Sindicato quanto ao descumprimento de cinco cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho, ironizou e encerrou a reunião sob alegação de que “afinal estava descumprindo menos de 10% da mesma”. Multas pelos atrasos, só por demanda judicial, quebra de isonomia salarial e a permanente propensão e tentativa de descumprir a Convenção Coletiva de Trabalho, culminaram com o máximo da arrogância quando, antevendo a perspectiva da crise da Universidade, o ex-reitor tentou no final de 2007 desvincular os seus professores do Sinpro/RS pela via da criação de um novo Sindicato em Canoas.

Chega ao final uma trajetória de desrespeito e humilhação aos professores, que merece a comemoração de toda a comunidade educativa do RS e do Brasil. Para a Ulbra, abre-se, finalmente, uma perspectiva de realizar suas potencialidades educativas. Para os professores, permanece a expectativa de uma relação digna e respeitosa na sua atuação na instituição.

* Diretor do Sinpro/RS

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