Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 134 | Ano 14 | Jun 2009
LUIS FERNANDO VERISSIMO

A Itália talvez seja o país mais simpático do mundo. Simpatia, claro, é um critério subjetivo e vago. Muita gente diria que a Itália pode ser pitoresca e amável, mas os italianos… Para a maioria, no entanto, os defeitos dos italianos fazem parte do seu charme, e se juntam à paisagem e à riqueza arquitetônica como atrativos do lugar. Tudo é perdoado pela simpatia e até seus buffones e mascalzones se integram no espetáculo irresistível de um país decididamente delicioso, além de fotogênico.

Mas o Berlusconi desafia esse indulto tácito dado a tudo que é italiano. Não é simpático, tem o charme de uma batata e não é nem um bom ator, como o Mussolini. E, no entanto, foi eleito para governar a Itália mais de uma vez e atualmente tem um índice de aprovação pública altíssimo. Dizem que é sua imagem de empresário de sucesso que inspira os italianos, mas o exemplo que ele dá é do pior tipo de empreendedor, com mais ganância do que escrúpulos.

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Agora, Berlusconi lidera um movimento de repulsa a imigrantes inédito no seu radicalismo até numa Europa cada vez mais xenófoba. Parte da sua boa aprovação se deveria a esse endurecimento com os imigrantes. A deliciosa Itália fica amarga.

Perfeito

Uma vez, vi um homem desenhar na mesa de um bar o que ele chamava de O País Perfeito. O país não existia, ou existia mas não era bem um país. Seus limites arbitrários estavam no desenho do homem e incluíam toda a Provence no sul da França e o Piemonte e a Toscana no norte da Itália. Mônaco e um naco da Suíça entravam como brindes e para não fracionar o mapa. Cujo autor citava as razões pelos quais aquele seria o melhor país do mundo para se morar, numa equação que incluía qualidade de vida, qualidade de comida e bebida, qualidade de clima e qualidade de gente.

Deve ser dito que isto foi em tempos pré-Berlusconi. Cada um pode inventar seu próprio país perfeito e até ignorar restrições geográficas e juntar, por exemplo, a Dinamarca, Vancouver no Canadá e o seu bairro. Que países você gostaria que começassem na porta da sua casa e fosse seu vizinho dos fundos?

Glub, glub, glub

As Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, formam o país mais baixo do mundo. Sua elevação mais alta tem só uns quatro metros. Já calcularam que, com o degelo nos polos e os mares subindo, as Maldivas estarão embaixo d’água antes do fim do século. E li que o governo está fazendo o seguinte: procurando um lugar para mudar o país. Toda a população será levada para uma área comprada, por exemplo, na Austrália, onde as Ilhas Maldivas serão refundadas, e onde um dia terão que explicar às novas gerações aquele “Ilhas” no nome. Dizem que já há milhares de corretores imobiliários se apresentando para agenciar o gigantesco negócio.

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