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Nº 134 | Ano 14 | Jun 2009
SAÚDE
SAUDE

Corridas a postos de saúde, incertezas sobre programação de viagens, receio da chegada do inverno, dúvidas sobre como proceder em caso de sintomas que, até a dois meses, eram tratados com analgésicos e uma
Por Flavia Bemfica

Doenças consideradas vencidas pelas políticas de saúde pública, como a febre amarela, e outras, que haviam se tornado bem pouco letais, como as gripes, voltaram a assustar. Até a dengue, cuja propagação em áreas de clima frio é mais difícil, passou a ser temida pelos gaúchos. “Entre médicos, já era aguardado um surto de dengue no estado para o verão que passou. Do próximo, dificilmente escapamos. O avanço da febre amarela fica evidente para qualquer um que observe o mapa da doença no RS, mas deve ser refreado pelo frio. Agora, devido à Influenza A (H1N1), os profissionais que trabalham nas emergências avaliam se devem ou não atender a todos de máscaras”, revela um médico vinculado à Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (SMS).

GRIPE – O susto inicial causado pela rápida disseminação da chamada gripe suína – a Influenza A (H1N1) – só fez aumentar as incertezas das pessoas a respeito da eficácia das políticas públicas de prevenção a doenças infecciosas e infecto-contagiosas e as possibilidades de tratamento. As notícias sobre a gripe surgiram “do nada”, no final de abril, com casos registrados no México que se alastraram rapidamente por vários países. As garantias informadas pelo Ministério da Saúde sucessivamente precisaram ser revistas. Primeiro, o ministério informou que havia tomado todas as providências para que a gripe não chegasse ao Brasil. Quando ela chegou – apesar das providências – , o discurso mudou. O ministério passou a afirmar que não havia registro de transmissão entre pessoas dentro do país. Em questão de horas, este tipo de transmissão se tornou uma realidade.

ESTADO – No RS a situação não foi diferente. Com a divulgação do Plano Estadual para Enfrentamento da Pandemia da Influenza, nove hospitais no estado passaram a ser indicados como referência para o tratamento da doença, dois deles em Porto Alegre: o Conceição e o Clínicas. Este último, contudo, não tinha estrutura adequada para receber casos suspeitos, e acabava enviando-os para o Conceição. A Secretaria Estadual da Saúde (SES) alterou a lista de hospitais de referência que mantém em seu site (www.saude.rs.gov.br), mas não houve grande divulgação. No Conceição, até o final de maio, a média diária de pacientes com suspeita da Influenza A (H1N1) oscilava entre dois e três.

Autoridades argumentam que situação é estável

Um dos principais argumentos das autoridades e responsáveis por serviços de saúde sobre a eficácia das medidas de prevenção adotadas para o combate das doenças infecciosas e infecto-contagiosas é que, desde o final de maio, mantiveram-se estáveis os casos de Influenza A (H1N1) registrados. No RS, até então, havia apenas um caso confirmado, da paciente de Santo Ângelo que contraiu a doença na Europa. Questionadas sobre como a paciente ingressou no estado e passou pelas barreiras sanitárias, já que inicialmente foi divulgado que ela apresentara os primeiros sintomas ainda na Itália, as autoridades são taxativas. “Ela teve na Itália um momento de mal-estar e se declarou assintomática quando entrou no Brasil. Na viagem entre Porto Alegre e sua cidade, apresentou uma febrícula e contatou seu médico que, por descargo de consciência, efetuou a comunicação”, assegura o diretor do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), Francisco Paz. “Ela chegou sadia em São Paulo, veio para o apartamento do filho em Porto Alegre e só então é que começou a sentir-se mal”, argumenta a responsável pelo posto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Aeroporto Internacional Salgado Filho, Vera Moeller.

A paciente apresentou os primeiros sintomas antes de desembarcar no Brasil, mas esse dado importante se perdeu, assim como vários outros, na enxurrada de informações diárias a respeito da doença. É um detalhe importante para estabelecer as diferenças que existem entre os pontos anunciados nos planos de combate às doenças e o cotidiano das ações de prevenção e fiscalização. No Salgado Filho, por exemplo, chegam, por dia, oito voos internacionais, todos provenientes da Argentina e do Uruguai. Juntos, trazem cerca de 5,3 mil viajantes em um mês. Segundo Vera, mesmo depois da estabilização no número de novos casos, em média um destes voos traz passageiros com sintomas suspeitos.

VIGILÂNCIA – No aeroporto a vigilância se intensificou após a divulgação do caso da paciente de Santo Ângelo. Todos os passageiros dos voos internacionais diretos estão desembarcando em uma área restrita e sendo submetidos a uma entrevista breve, na qual são feitas perguntas que visam identificar origem e destino do passageiro, onde esteve nos últimos dez dias e se apresenta algum sintoma. Os passageiros também preenchem uma declaração de saúde do viajante, com nome, endereço e contatos. Só depois se dirigem para a porta do desembarque internacional. Vera lembra que, entre eles, há pessoas cujos pontos de partida estão em diferentes partes do mundo. Vários vêm da Austrália e passam pela Argentina. O mesmo fazem muitos que saem dos Estados Unidos e optam pela rota com escalas em Santiago do Chile e em Buenos Aires, devido ao menor preço da passagem.

Quando no voo há algum caso suspeito, o comandante alerta a torre de controle, que comunica a Anvisa e o posto médico do aeroporto. A pessoa é examinada e, então, definido se deve ser encaminhada para um hospital de referência ou se pode ser monitorada em casa. Vera admite que há casos de pessoas que não revelam os sintomas. “Por vezes observamos a existência de sintomas, mas algumas pessoas têm receio de ser encaminhadas para a rede pública. Preferem contatar seu próprio médico ou plano de saúde primeiro. Não podemos examinar os viajantes sem a sua autorização”, destaca.

Voos domésticos não têm controle

O extremo cuidado registrado no desembarque internacional não se repete no de voos domésticos. Nestes, os passageiros chegam e transitam livremente sem interferência de fiscais sanitários. Viajantes que estejam retornando do México, por exemplo, passam primeiro por São Paulo e desembarcam em Porto Alegre em um voo doméstico. “Só em Guarulhos chegam, todos os dias, 80 voos internacionais. Mas o pessoal lá está fazendo um bom trabalho”, defende Vera.

Em Porto Alegre, a avaliação, no caso dos domésticos, fica mesmo por conta dos passageiros. As autoridades sanitárias acreditam que eles vão voltar sua atenção para um dos dois banners com informações sobre a gripe suína instalados próximos à área de desembarque, ouvir os avisos sonoros em três idiomas que a cada 15 minutos são veiculados no sistema de som ou então recolher um dos fôlderes informativos sobre a doença que ficam espalhados sobre um dos dois pequenos guichês da Anvisa.

Mas os viajantes passam apressados. “No desembarque nacional o pessoal distribui fôlderes e fica à disposição para informações”, assegura a responsável pelo posto da Anvisa. Na manhã de 19 de maio, enquanto a responsável concedia entrevista, os dois guichês da Anvisa estavam sem funcionários. Em um deles, duas servidoras empilhavam uma outra publicação, um guia de museus. No desembarque, o mesmo guia, e não o folheto sobre a gripe, era distribuído aos que chegavam.

Falta transparência nos planos de prevenção

Para saber quais as formas de prevenção de doenças infecciosas e infecto-contagiosas que podem se transformar em epidemias, ou até mesmo pandemias, e como países, estados ou cidades estão equipados para enfrentá-las, dois dados são fundamentais: identificar quais as estratégias de prevenção e quanto é investido nas mesmas. Deveria ser uma informação de fácil acesso. Mas não está disponível nos planos de manejo das doenças que vêm assustando a população, como a gripe suína ou a febre amarela.

DEFASADOS – Conforme as informações do Conselho Estadual de Saúde, os dados que o CES dispõe sobre quanto o estado e os municípios gaúchos investem em ações de prevenção a estes tipos de doenças estão defasados. O levantamento estaria a cargo da Assessoria de Planejamento da Secretaria Estadual da Saúde (SES). Na secretaria, a informação é de que precisa ser feito um levantamento dos números, que demora. Na Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembleia Legislativa também não há informação sobre os valores. “Não tratamos disso”, esquiva-se uma das assessoras da comissão.

Sem aguardar por dados relativos a valores, os profissionais vinculados à área da saúde apostam na experiência. “Mesmo que o índice de mortalidade seja bem inferior ao inicialmente previsto, se houver disseminação interna da Influenza A (H1N1), e há indicativos de que isso vai ocorrer, e nós lotarmos, o momento de contenção da doença acaba e todos os hospitais passam a ser aptos a atender pacientes com o vírus”, avisa o responsável pelo Controle de Infecções do Hospital Conceição, na Capital, Renato Cassol. “O risco de vírus mutantes que podem infectar diferentes espécies antes era mais do conhecimento da comunidade científica. Isso não tem política que resolva. Mas temos outros recursos, como as drogas antivirais e as vacinas”, completa a infectologista e pediatra Soraya Collares, do Complexo Hospitalar Santa Casa em Porto Alegre.

Paz recomenda “calma” contra a febre

Para o diretor do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), Francisco Paz, a preocupação em relação às doenças infecciosas e infecto-contagiosas faz parte de “uma certa cultura do medo”. O diretor, que afirmou haver histeria da população quando Porto Alegre passou a ser considerada área de risco para febre amarela e as pessoas procuraram imediatamente os postos de saúde para se vacinar – sem muitas vezes encontrar vacinas – , diz que o melhor é manter a calma. “A globalização mostra como estamos vulneráveis a situações que antes não nos chegavam e, talvez por isso, as pessoas fiquem mais apreensivas”, acredita. Mesmo que o Cevs recomende paciência e que agora a gripe tenha tomado o foco das atenções, em substituição à febre amarela, para aqueles que possuem alguma dúvida e não se enquadram nos casos contraindicados, a infectologista da Santa Casa é categórica. “Quem mora em Porto Alegre, por exemplo, deve se vacinar. A febre amarela já matou sete pessoas no RS”.

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