Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 136 | Ano 14 | Ago 2009
WEISSHEIMER
MARCO AURÉLIO WEISSHEIMER

Por Marco Aurélio Weissheimer

No dia 24 de julho, o chefe da Casa Civil do governo estadual, José Alberto Wenzel, disse esperar, após o rigoroso inverno gaúcho, uma primavera mais tranquila para a governadora Yeda Crusius. A meteorologia política de Wenzel, porém, terá que convencer a realidade a sair de férias. Além das frentes frias e das massas de ar polar que estacionarm no estado neste período, pesadas nuvens aguardam pacientemente sua vez na fila. A mais recente crise no Detran gaúcho indica uma parte do que vem aí. Um dia após ser demitido da presidência do órgão, Sérgio Buchmann prestou um depoimento de 4 horas à Polícia Federal. Antes disso, já havia visitado o Ministério Público Federal. Na pauta dessas conversas, questões relativas à Operação Rodin, que denunciou o roubo de cerca de R$ 44 milhões no Detran, e à Operação Solidária, que investiga fraudes em licitações no estado.

O governo Yeda aproveitou o recesso da Assembleia Legislativa para tentar respirar um pouco. A governadora buscou refúgio em Canela para escapar dos protestos de rua e da tensão crescente sobre seu gabinete e assessores, envolvidos em atitudes não muito republicanas, para dizer o mínimo. Os aliados de Yeda não contavam com a nova crise no Detran e ficaram muito irritados com a participação do chefe de gabinete da governadora, Ricardo Lied, no episódio. Eles esperavam atravessar o recesso em tranquilidade, com as atenções voltadas inteiramente para suas bases eleitorais no interior. Mas o “novo jeito de governar” não dá trégua em sua enlouquecida sanha de aumentar o buraco em que se encontra. O chefe da Casa Civil falou, mais uma vez, em iniciar uma nova fase no governo, inclusive com mudanças de nomes. Nomes que vão escasseando cada vez mais.

Interesses privados x interesses públicos

Na Assembleia, o líder da bancada do PT, Elvino Bohn Gass, anunciou que apresentaria, logo após o fim do recesso de julho, um requerimento à Comissão de Serviços Públicos para a realização de uma audiência com os ex-presidentes do Detran Estella Maris Simon e Sérgio Buchmann. “Os dois últimos presidentes que deixaram a autarquia afirmaram que interesses privados prevalecem sobre o interesse público. Queremos saber que interesses são estes que transformaram o Departamento de Trânsito num foco de irregularidades e quem são os membros que os representam”, justifica Bohn Gass. Está cada vez mais difícil para os deputados que sustentam Yeda fazer de conta que nada está acontecendo de errado no governo. A própria base aliada admite que as crises constantes estão ficando insuportáveis.

Sindicato denuncia uso político da Polícia

O presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do Rio Grande do Sul (Ugeirm), Isaac Ortiz, encaminhou dia 17 de julho um ofício ao Chefe de Polícia, delegado João Paulo Martins, defendendo a apuração de fatos gravíssimos relacionados à ação policial envolvendo o filho do ex-presidente do Detran, Sérgio Buchmann. O ofício pediu também para que seja dada transparência máxima aos resultados dessa investigação. O sindicato quer saber qual autoridade policial deu acesso a uma investigação do Denarc ao chefe de gabinete da governadora Yeda Crusius, Ricardo Lied. “Não conhecemos Sérgio Buchmann, mas queremos aplaudir sua declaração de que a Polícia Civil tinha que fazer o seu trabalho”, disse Ortiz. A íntegra do ofício:

Tendo em vista a gravidade das notícias publicadas pelo jornal Zero Hora, nos dias 16 (página 14) e 17 (página 16) de julho, o Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do Rio Grande do Sul recomenda, fortemente, a imediata xapuração do ocorrido e que seja dada transparência total aos resultados dessa investida. É merecedor de repúdio o eventual uso político da Segurança Pública em geral – e da Polícia Civil, em particular.

As notícias maculam a imagem da instituição junto à sociedade e expõem a dignidade de agentes do Denarc que são subordinados a uma investigação presidida por autoridade policial competente, bem como associam a Polícia Civil à colaboração com eventuais práticas de chantagem e condutas suspeitas de corrupção em que estão implicados integrantes e ex-integrantes do governo do Rio Grande do Sul. Os fatos publicados, no limite, colocaram a vida de agentes policiais que cumpriram a diligência em risco.

O mês de agosto deve trazer mais turbulência em torno do caso. O depoimento que Buchmann prestou à Polícia Federal, após ser demitido, abriram um novo foco de investigação. No dia 29 de julho, a imprensa de Porto Alegre noticiou que esse depoimento pode dar origem a uma Operação Rodin II. Os últimos acontecimentos indicam que a primavera aguardada pelo Palácio Piratini pode ser marcada por chuvas e trovoadas. Mais uma vez.

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