Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 136 | Ano 14 | Ago 2009
FRAGA

Qual a criança (inclusive aquela com várias infâncias, que nem eu) que diante de uma fumegante sopa de letrinhas nunca parou, antes da colherada, para localizar uma palavra boiando, em formação aleatória? E quem não tentou interferir no acaso e não ficou mexendo, remexendo, na esperança de um improvável vocábulo?

Sopa de letras faz pensar, e não apenas ludicamente. Rala ou cremosa, a refeição é um arquipélago de possibilidades, tanto alimentícias quanto filológicas. Enquanto não esfria e coagula, travando a ondulação do alfabeto de amido, o comensal filosofa. Respostas a profundas inquietações podem surgir casualmente no lago de calorias cercado de porcelana por todos os lados: qual a origem do universo? E o sentido da vida? Quais as razões da razão? Por que minha mãe me obriga a tomar isso?

As letrinhas nada revelam, e no entanto elas se movem. Assopramos, em busca da acomodação térmica do caldo na língua, enquanto queimamos fosfato em torno dos mistérios de imprevisíveis arranjos. O vento bucal rearruma a superfície: “pjalve”, “dfzhuo”, “vbcmigr”. (Quem sabe a arqueologia deva algo à culinária do infante Champollion). Significados ocultos, perdidos para sempre após a deglutição, talvez segredos imemoriais, que só digerimos literalmente, sem literatura.

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E dizer que já houve confusão linguística com esse alimento, ah, se as sopeiras falassem. Imagine os conflitos internacionais, quando os primeiros pacotes de sopa de letra corriam o mundo e eram mal interpretados em outros países. Um prato fundo podia conter inocente grupo consonantal num idioma e ser intragável palavrão em tcheco, norueguês, húngaro. Ou frustrava brincadeiras à mesa: por mais que induzissem o alinhamento das letrinhas, era tudo indecifrável.

Foi preciso que os responsáveis pelas receitas parassem para pensar. A conclusão foi tão óbvia que obviamente todos estalaram a palma da mão na testa e redundaram a obviedade: como não pensamos nisso antes?!

A solução foi que cada nação tinha que fabricar sua própria massinha. Desse modo a produção já resultava condicionada à língua materna do fabricante, por assim dizer. Os testes logo comprovaram: todas as formações ensopadas, mesmo as ininteligíveis, continham elementos do léxico local. Alívio para olhares e paladares.

Com a atual globalização, a maioria das sopas de letras soletra em inglês. É um indigesto defeito de fabricação. Goela abaixo, pode até virar uma arma de desnutrição em massa.

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