Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 136 | Ano 14 | Ago 2009
EDUCAÇÃO
SISTEMA BRAILLE

Apesar das políticas, dos recursos e das entidades voltadas para a inclusão dos cegos, os obstáculos se multiplicam no trajeto que André cumpre diariamente entre sua casa, a escola e o centro da capital.
Por José Weis

A pesar das políticas, dos recursos e das entidades voltadas para a inclusão dos cegos, os obstáculos se multiplicam no trajeto que André cumpre diariamente entre sua casa, no Arquipélago, a escola, na Avenida Ipiranga, e o centro da capital, onde ele frequenta o Setor Braille da Biblioteca Pública do Estado, na Casa de Cultura Mario Quintana. Especialmente nas ruas e avenidas do centro a locomoção, que para qualquer transeunte já é repleta de obstáculos como meio-fio de até 40 centímetros e muitos esbarrões, se transforma em uma sucessão de surpresas e contratempos para um deficiente visual.

Num final de tarde de julho, quarta-feira de trânsito caótico e de calçadas congestionadas por volta das 18h, acompanhado da reportagem do Extra Classe, André encara sua aventura diária, desde a Casa de Cultura rumo ao terminal de ônibus que fica sob o Centro Popular de Compras, antiga Praça Ruy Barbosa. Uma epopeia: as calçadas são esburacadas, há muitos orelhões e mesas de bares no passeio público, as placas de publicidade e bancas de jornais multiplicam-se no trajeto. E ainda há os transeuntes apressados. Não são raros os esbarrões com tombos no meio-fio e bengalas quebradas.

Além de narrar incidentes que já aconteceram com ele, André revela as artimanhas para sobreviver no centro e diz que se orienta também pelos ruídos e olfatos característicos de cada quarteirão: “aqui é uma casa de artigos de religião”, aponta ao passar por uma “Flora”, na Avenida Júlio de Castilhos. Bem-humorado, descreve o mundo à sua volta e até faz algumas confidências: seu sonho de consumo é ter um cão Labrador, raça que considera ideal para cão-guia. “Já tive uma cachorra da raça chowchow, mas ela era muito agitada”, conta em meio à confusão de transeuntes e vendedores ambulantes que burlam a fiscalização e os limites de concreto do camelódromo.

ACERVO – Provisoriamente instalado na Casa de Cultura Mario Quintana, o Setor Braille da Biblioteca Pública do Estado em nada lembra o ambiente caótico e hostil das ruas do centro. Ali os cegos são acolhidos por profissionais atenciosos e qualificados, além de contar com uma infra estrutura compatível com suas demandas. “Temos um acervo de 5.017 volumes em Braille, 626 livros gravados em CD e um outro tanto em fitas cassete”, contabiliza Marli Bion, coordenadora do Setor. O acervo apontado pela coordenadora foi reforçado com a transferência dos livros do Centro Louis Braille – que fazia parte da Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência do Rio Grande do Sul (Faderes) e foi desativado em 2008.

Professora especializada em Educação para Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais, Marli considera positivas as experiências de inclusão de alunos cegos em escolas regulares, mas ressalva que ainda há muitos aspectos que deixam a desejar. “Falta capacitação mais específica para o professor. A inclusão não cobre todas as necessidades de um aluno cego”, constata.

INTERNAUTAS – A professora Janete Schneider é cega de nascença. Formada em Letras pela Ufrgs, ela ensina os primeiros passos para o domínio da Internet a outros deficientes visuais do programa de Inclusão Social desenvolvido pela prefeitura de Porto Alegre. As aulas são ministradas no quarto andar da Usina do Gasômetro e consistem de iniciação ao uso do computador por deficientes visuais, utilizando programas que contemplem as demandas e necessidades específicas dos usuários. Uma das ferramentas mais utilizadas no projeto é o Intervox, um programa de computador que permite aos cegos o acesso à web, pois faz a “leitura” dos conteúdos. O programa (http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox) desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro pode ser baixado gratuitamente no site da instituição (www.ufrj.br).

Santa Luzia e Adevic promovem aprendizado e inclusão

Na região Metropolitana da capital duas entidades são referência para o atendimento e encaminhamento à inclusão social dos deficientes visuais. Em Porto Alegre, no Bairro Cavalhada, o Instituto Santa Luzia tem uma tradição de 68 anos, que se completam em setembro. Há cerca de 40 anos, o Santa Luzia fez o caminho da inclusão de forma inversa, incluiu alunos não-cegos nas salas de aula de deficientes visuais. Por isso, atualmente todos estão familiarizados com as palavras e objetos destinados ao ensino em Braille, a exemplo do reglete (régua perfurada para marcar com pontos no papel para que se possa identificar o alfabeto em Braille), punção (instrumento usado para marcar os pontos no papel) e sorobã (método de ensinar Matemática aos deficientes visuais).

Segundo a orientadora pedagógica Eliana Neves, a instituição atende 32 alunos com deficiência visual num universo de 840 estudantes. A interação entre eles é total, de acordo com a também orientadora Fernanda de Morais Fernandes. Ela ressalta que os alunos que enxergam procuram se aproximar e trocar experiências com os deficientes visuais “até porque estes prestam mais atenção e aprendem mais”. A escola oferece um curso de Braille para iniciantes, aberto à comunidade, e que é realizado duas vezes por ano.

Fundada em 1996, a Associação dos Deficientes Visuais de Canoas (Adevic) atende cegos da Grande Porto Alegre. O professor Eri Domingos da Silva, presidente da entidade, explica que no RS, nos últimos dez anos, houve um aumento na produção de edições de obras em Braille. “Isso se deve a alguns apoios de governos e de empresas até para a aquisição de impressoras Braille”, explica. Segundo ele, se produz muito mais material em Braille do que seria necessário. “Se espalham muitos livros em Braille que às vezes nem sequer são lidos, principalmente os didáticos. Não há controle”, aponta.

O professor explica que a alfabetização em Braille deve ser orientada por especialistas desde o início, o que não está ocorrendo na educação pública. “Não basta simplesmente aprender as letras em Braille. Em condições normais, o aprendizado de uma criança deficiente visual em nada difere de uma que enxerga. A deficiência visual não está ligada diretamente à questão intelectual”, esclarece. A Adevic tem 385 associados. Desses, pelo menos 170 são atendidos e desenvolvem suas capacidades, segundo a assistente social Daniele Guimarães.

Valdir da Silva, 34 anos, é um bom exemplo da importância do trabalho desenvolvido pela Adevic. Cego há dez anos, ele desenha, está escrevendo um livro de poemas e crônicas com fotos tiradas por ele. “Minhas mãos são os meus olhos”, define Valdir, que também dedica uma parte do seu tempo ao atendimento de crianças deficientes visuais na entidade. A exemplo de Valdir, Bruna Bassi Borges, 24 anos, também é monitora voluntária na Adevic. Ela é responsável pela iniciação dos deficientes no aprendizado do método Braille. “São diversas etapas até que a pessoa possa ler e escrever com autonomia. Eu nasci cega e passei por todo esse processo. Hoje, transmito com muita alegria aquilo que aprendi”, diz Bruna.

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