Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 138 | Ano 14 | Out 2009
LUIS FERNANDO VERISSIMO
COLUNISTA

No século 17, a busca por um meio de estabelecer a longitude levou cientistas a experimentar com métodos que, se não resolveram o desafio principal, o de assegurar a orientação dos barcos em alto-mar (o que só viria no século 18), trouxeram grandes avanços para a cartografia e a medição de distâncias em terra. Valendose da nova ciência da astronomia e dos movimentos dos planetas e seus satélites, Galileu e outros redesenharam o mapa do mundo. Tanto que o rei Luiz XIV da França, diante de um mapa revisado dos seus domínios, reclamou que estava perdendo mais território para seus astrônomos do que para seus inimigos.

Anos antes, um outro rei, Rodolfo II, da Boêmia, tinha tentado fazer o contrário, engajar a ciência, ou o que passava por ciência na sua época, na ampliação dos seus poderes. Rodolfo II tornou-se patrono de todas as artes claras e ocultas de que ouvia falar e recrutou para sua corte, além de artistas e pesquisadores “sérios”, como Tycho Brahe e Johannes Kepler, gente como os ingleses Edward Kelley, um vigarista metafísico, e John Dee, conhecido como conselheiro da rainha Elizabeth I para assuntos esotéricos. Na corte de Rodolfo II, experimentava-se com todos os tipos de divinação e apelo ao sobrenatural (seu astrólogo era o próprio Nostradamus) e dava-se ênfase especial à alquimia, com a qual o rei pretendia eternizar-se. Rodolfo II queria, também, o domínio do tempo e do destino.

Da ciência que prometia onipotência a reis interessados, como Rodolfo II, à que diminuía o território e, portanto, a majestade de Luiz XIV, andou-se um bom caminho na dessacralização do poder, e tudo em menos de um século. Ainda há governantes que se acham autorizados por Deus e a Natureza a reivindicar um poder eterno – ou pelo menos um terceiro mandato –, mas já são raros. E a neutralidade da ciência ajuda a sepultar qualquer presunção de favorecimento divino e qualquer mentira mantida por conveniência política ou vaidade. A ciência da estatística – escrevi tudo isto pensando nos dados recém-publicados pela Fundação Getulio Vargas sobre a melhoria na distribuição de renda no Brasil nos últimos anos – é um bom exemplo de ciência neutra. Não é a favor ou contra, mas é a prova de falsificações históricas.

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