Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 139 | Ano 14 | Nov 2009
FRAGA

Lá onde faz escuro na memória, havia duas tribos: Escrevinhadores e Leitores. Embora a geografia fosse plana como um mapa, entre eles havia um abismo: uma tribo tinha aptidão somente para a escrita, a outra só para leitura. Assim estranhados por recíprocas incompreensões, em vez de se comunicarem se trumbicavam.

O problema das duas tribos é que além dos problemas de uma com a outra, cada uma tinha os seus. E o que mais problematizava a vida tribal eram os respectivos dons naturais.

Os escrivinhadores adoravam escrever, rabiscadores natos, toda ponta virava lápis, toda superfície virava folha. E o pior é que não fazia sentido: um escrevinhador escrevia e ninguém entendia. E não era a caligrafia, ou a complexidade. Era simples: ninguém sabia o que escrevia, não conseguia ler seu amontoado de letras, por mais fluente que fosse. E como saber o que era fluência ali, onde todo mundo era, ao mesmo tempo, letrado e iletrado?

Os leitores, numa voracidade ocular, liam de tudo, de arranjos de pedrinhas e arrumação de gravetos, até as constelações reconfiguravam para soletrar o céu. A agonia dos leitores iniciava quando alguém cismava em grafar algo lido. A escrita jamais fluía.

A lenda empacaria aí não fosse um idílio inesperado, um par de escrevinhador e leitora. Ocultaram a atração e passaram por cima das incompatibilidades, ou se enfiaram sob elas. Depois de nove meses, uma das tribos ficaria maior: nascera um escrevinhador ou um leitor? O tempo diria.

A genética, que adora miscigenar a vida, fora provocada. Um dia o menino começou a ler. Festa entre os leitores! Soltaram a criança, seguiram a habilidade. Depois de ler tudo que era legível no território, avançou para o dos escrevinhadores.

Chegou a uma pilha de placas de ardósia sobrescritas, abandonadas ao desentendimento. Leu em voz alta. E os leitores vibraram de novo. De repente, o menino estacou, mirou, intuiu, pegou um carvão, uma lasca limpa e… começou a escrevinhar. E não parou mais. Festa na tribo dos escrevinhadores!

Algum tempo depois, dois fenômenos: 1) Aulas em massa com o professorzinho. Agora tudo podia ser escrito por qualquer um, tudo podia ser lido por todos. 2) Casamentos em massa entre as tribos. Agora tudo podia ser transmitido.

E a escrita e a leitura se espalharam pelo mundo, por tribos nem sempre aquinhoadas por aptidões. Ainda há pouca miscigenação. É por isso que ainda hoje tanta gente lê mal e tantos escrevem pior ainda.

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