Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 139 | Ano 14 | Nov 2009
AMBIENTE

Primavera com dias de baixa temperatura, tempo instável, com alternância de sol e chuvas torrenciais, ventos fortes, possibilidade de granizo e, até, de tornados. A frase parece com um dos sucintos boletin
Por Flavia Bemfica

A ideia do clima perfeito e estável não existe porque não há estabilidade no sistema natural. Existe um estado que denominamos de neutralidade climática. Ao que tudo indica, do final do nosso verão até maio tivemos um estado de neutralidade climática e depois a transição de uma La Niña para um El Niño moderado, que deve se estender até o fim do próximo verão. Seria a principal causa do aumento na quantidade de chuvas e do ingresso de frentes frias. Este ano foi de 1,5 a duas por semana, quando o mais comum é uma por semana”, explica o geógrafo e professor de Climatologia do Departamento de Geografia da Universidade Federal do RS (Ufrgs), Francisco Aquino. Reconhecido nos meios acadêmicos, o professor está entre aqueles cientistas um tanto avessos a entrevistas, por considerarem que as informações repassadas pela mídia para a grande parcela da população, via de regra, não dão conta da complexidade ou da extensão do tema. “Não há como explicar o que está acontecendo em um minuto e meio, por exemplo. Não dá simplesmente para dizer que a natureza está se rebelando, ou atribuir o que ocorre à divindade ou negar as alterações. Há necessidade de informação qualificada”, resume ele, que refuta o uso do termo catástrofe – utilizado largamente nas notícias – para tratar sobre as alterações climáticas.

O assunto é mesmo alvo de polêmicas, inclusive entre os cientistas, que fornecem explicações quase sempre na condicional, ou utilizando termos como “o mais provável” e “é bem possível”. Mas a grande parte das pesquisas aponta que a intervenção humana tem um papel de peso sobre as alterações do clima. Conforme Aquino, sempre ocorreram os chamados eventos extremos na história do clima da terra mas, em paralelo, vivemos um aquecimento global principalmente ao longo dos últimos 50 anos.

A temperatura e as chuvas aumentaram. As variabilidades também: são mais fortes e com frequência de repetição maior. O 4º e último Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o órgão das Nações Unidas responsável por produzir informações científicas a respeito do tema, baseado em pesquisas de cerca de 2,5 mil cientistas em todo o mundo, divulgado em 2007, apontou, entre outras conclusões, que 11 dos então últimos 12 anos ocupavam os primeiros lugares na lista de anos mais quentes desde 1850; que o aquecimento se acelerou nos últimos anos: 0,74 grau suplementar nos últimos cem anos (1906-2005), frente ao 0,6 grau do período 1901-2000; e que no final do século 21 as temperaturas aumentarão entre 1,8 e 4 graus com relação a 1980-1999, previsões mais otimistas numa escala que vai até 6,4 graus.

O relatório também já indicava como “muito provável” que as altas temperaturas, as ondas de calor e as fortes precipitações se tornassem mais frequentes; como “muito possível” que as tormentas tropicais, os tufões e os furacões ficassem mais intensos, com ventos e chuvas mais fortes e que “muito provavelmente” as precipitações aumentassem nas latitudes elevadas. O próximo relatório do IPCC será publicado em 2011.

“O que ocorre com o RS é que está 0,5 grau mais quente nos últimos 50 anos. Provavelmente resultado das mudanças globais. As chuvas aumentaram em 8% e 10%. Como chove mais e nas estações mais quentes ocorrem mais chuvas, há mais tempestades. Parte das mudanças é sim resultado da intervenção humana. Só que ainda não conseguimos quantificar quanto das alterações se deve a causas naturais e quanto não”, destaca Aquino. “É fato que o clima está mudando e que passamos por uma fase de ajuste. Já saímos da fase da identificação das mudanças. Precisamos é melhorar as projeções a curto prazo e investir em ações de mitigação e adaptação”, completa a professora Ilana Wainer, do Departamento de Oceanografia Física do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).

El Niño, La Niña e as secas da Região Sul

Fenômeno que se popularizou entre os brasileiros a partir da década de 90, o El Niño se caracteriza, grosso modo, pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico (cujas temperaturas são medidas há 150 anos), a partir da diminuição na intensidade dos ventos, que geram a diminuição da ressurgência de águas profundas. Sua variação, a La Niña, marca o resfriamento das águas daquele oceano, o maior do planeta. O fenômeno é apontado como responsável por alterações do clima em todo o planeta, sendo especialmente conhecidas o aumento de chuvas no sul da América do Sul e a maior ocorrência de seca no continente australiano e Indonésia, além de verões excepcionalmente quentes na Europa, dependendo de sua intensidade. A La Niña, por sua vez, provoca no Sul da América do Sul invernos mais secos e rigorosos, como o deste ano de 2009.

Atualmente equipes de cientistas já se dedicam a estudar se há aumento da frequência dos eventos de El Niño e suas variações nas últimas décadas, e quais as possibilidades de relacioná-lo às alterações climáticas. Quando explicam a leigos sua importância, os cientistas lembram relações fundamentais, como o fato de a troca de energia entre os oceanos e a terra modular a temperatura. Mas ainda não conseguiram determinar com clareza o que origina um evento de El Niño ou de La Niña.

Enquanto isso, as projeções se multiplicam. No final de setembro a revista científica Nature publicou um artigo de pesquisadores do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Oceânico da Coreia do Sul, no qual defendem que uma forma mais atípica do evento, denominada El Niño Modoki pode se tornar cinco vezes mais comum, já que vem aparecendo com mais frequência desde os anos 1980, e que seria viável associar o fato com o aumento de temperatura. Entre suas consequências no Brasil estariam secas nas regiões Sul e Sudeste.

Emissão de gases é grande vilã

O relatório de 2007 do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) é claro quanto ao efeito da emissão de gases que geram o efeito estufa sobre as alterações do clima do planeta: “as emissões passadas e futuras de dióxido de carbono seguirão contribuindo para o aquecimento e a elevação do nível do mar durante mais de um milênio, devido à duração de vida desses gases na atmosfera.” Mas ao mesmo tempo em que a comunidade científica atesta a necessidade de redução da emissão de gases, nas cidades brasileiras, por exemplo, o número de carros aumenta e o consumo de produtos ecologicamente corretos está longe de se popularizar.

“Você pode acreditar em algo porque tem fé ou porque comprova cientificamente. Eu pertenço ao segundo grupo e tenho certeza de que o clima está mudando e nos encontramos em uma fase de ajuste na qual várias coisas terão de mudar também”, responde a professora Ilana Wainer, da USP, quando lhe questionam se existe a possibilidade de uma autorregulação natural do planeta. “O sistema natural faz sua regulação mas ela ocorre em um tempo muito superior àquele que necessitamos”, certifica o professor Francisco Aquino, da Ufrgs.

Nos últimos cinco anos, uma série de eventos climáticos, e não apenas locais, fizeram com que populações e governos redobrassem a atenção: entre eles estão o furacão Catarina em parte do Rio Grande do Sul e Santa Catarina e o tsunami no Oceano Índico, ambos em 2004, o furacão Katrina, que destruiu Nova Orleans, nos Estados Unidos, e a atípica onda de calor na Europa, em 2005. As mudanças necessárias, contudo, avançam a passos lentos, porque implicam alterações no modo de vida da maior parte da população.

Os pesquisadores defendem investimentos pesados em educação e também alterações em pontos que vão da infraestrutura aos hábitos de consumo, passando pelas matrizes energéticas e produtivas. Quando abordam a complexidade que envolve as mudanças, citam o caso brasileiro. O país se dedicou a investir na pesquisa e desenvolvimento de biocombustíveis e, agora, descobre uma gigantesca reserva de pré-sal, o que o coloca de volta a exploração de combustíveis fósseis e todas as consequências que ela traz ao meio ambiente.

“Há uma série de fatores a serem abordados. As populações pobres, por exemplo, aumentam. O que ocorre não é que os eventos extremos as procuram. Elas é que são mais vulneráveis. Se houver uma tromba d’água no meio do oceano ninguém vai se machucar. Mas se ela acontecer no meio de uma favela, com barracos construídos em áreas de risco, a situação é bem diferente”, assinala Ilana.

No próximo mês de dezembro, representantes de 190 estados irão se reunir em Copenhague, na Dinamarca, para o 2009 United Nations Climate Conference at Copenhagen (COP 15), no qual o objetivo é chegar a um consenso sobre as metas de redução de emissão de gases estufa para o segundo período do Protocolo de Quioto. A primeira fase do acordo acaba em 2012.

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