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Nº 139 | Ano 14 | Nov 2009
ESPECIAL | ENSINO PRIVADO
METODISTAS

Gradualmente o estado de São Paulo passa a ser a base de operações de todas as unidades que compõem a Rede Metodista de Educação no Brasil. A implantação da Central de Serviços Compartilhada na cidade de São Bernardo dos Campos começou no segundo semestre de 2009 e, por enquanto, unifica processos da área administrativa. A expectativa é de que até o início do ano letivo de 2011 a transição esteja concluída: o último passo será a unificação pedagógica.

A principal razão para a mudança é a redução de custos. “É fundamental para a sustentabilidade. A concorrência está crescendo e temos que fazer frente a essa expansão”, justifica o diretor-geral da Rede Metodista do Sul, Norberto da Cunha Garin.

Os gestores metodistas não informam a atual situação econômica das instituições nem a expectativa do impacto direto no caixa da igreja. “São estudos que preferimos não tornar públicos. Mas posso dizer que a causa não necessariamente é de ordem financeira: queremos competitividade”, avalia um dos diretores da Central de Serviços Compartilhada, o paulista Paulo Salles.

Foi o histórico de dificuldades financeiras que levou à unificação regional em 2004, cuja ênfase foi a Educação Superior. Foi o primeiro passo para a rede nacional que vinha sendo debatida desde o final da década de 1990. A decisão final veio em 2006 durante o 16º Concílio da Igreja Metodista.

O primeiro reflexo já foi sentido no vestibular de inverno de 2009, que não foi organizado localmente. A Central de Serviços Compartilhados propôs quatro alternativas de datas com provas distintas: coube às unidades verificarem as mais favoráveis. O mínimo de inscritos necessários para que um curso seja aberto também passou a ser avaliado pelos gestores nacionais. Os professores comentam que algumas graduações não tiveram turmas mesmo com 30 vestibulandos dispostos a fazer as provas.

“Algumas decisões administrativas influenciam a área acadêmica, como abrir ou fechar cursos”, anota a ex-reitora Adriana Menelli, que focou a transição de modelo em sua tese de doutoramento, concluída em 2008.

O diretor do Sinpro/RS, Marcos Fuhr, lamenta que “este conjunto tradicional de instituições na educação do RS” tenha seu poder decisório transferido para outro estado. Segundo ele, a instituição já possui uma trajetória de reiterados problemas na contratualidade dos professores, que exigem constante atuação do Sindicato. “Com a centralização em São Paulo, teremos certamente maiores dificuldades em negociar soluções”, afirma.

Diretrizes nacionais afetarão trabalhadores

Atualmente afastada da área educacional da igreja, a ex-reitora acredita que “a integração vai otimizar o número de funcionários e de estruturas”.

Que o contingenciamento promova demissões é o que preocupa os empregados. Como o debate ficou restrito às “lideranças” – como são chamados internamente diretores, coordenadores de cursos e cargos de chefia – a insegurança tomou conta dos corredores.

“Soubemos que esse ano será a vez do administrativo e no final de 2010, farão uma limpa na área educacional”, denuncia um professor com uma década de casa que pede para não ser identificado.

O Sindicato dos Trabalhadores em Administração Escolar (Sintae) confirma que quatro empregados foram mandados embora sem justificativa. “Sabemos que as demissões são para fazer ajustes, mas nada nos foi dito oficialmente”, reclama o diretor de finanças do Sintae, José Roberto Torres Machado.

O assunto ganhou proporções ainda maiores a partir do afastamento da presidente da Associação de Professores do Colégio Americano – cuja justificativa foi de que havia sido uma ordem de São Paulo. Os docentes solicitaram que eventuais demissões sejam comunicadas antes do Natal, o que possibilita a recolocação no período de férias escolares, quando as escolas estão contratando. “A direção não pôde garantir isso, disse que não está em suas mãos”, lamenta o docente.

Ele comenta que as relações de trabalho estão tensas porque a negociação direta é impossível. Qualquer demanda deve ser repassada à Central de Serviços Compartilhados. E a figura da autoridade desapareceu. “Para quem devemos pedir as coisas? Para mim, Deus é mais material do que a figura que tem poder de decisão no colégio”, ironiza.

Paulo Salles é cuidadoso na explicação, porém não descarta a diminuição do número de funcionários. “Estamos trabalhando mais o âmbito administrativo. Por enquanto não creio que haja demissões de professores. Mas será necessário olhar também para essa área”, admite.

Também não está claro com quem os sindicatos deverão negociar: com as unidades ou a direção nacional. “Imagino que o isso será discutido localmente”, aposta Salles sem muita confiança.

Ele explica que contratações – e evidentemente, afastamentos de empregados – estarão condicionados às “diretrizes” estabelecidas nacionalmente. Compete às diretorias regionais apenas o encaminhamento da demanda. “Se não estiver nos planos, não haverá como contemplar”, observa.

Outro exemplo de indefinição em áreas-chave envolve o setor financeiro, que integra a Central de Serviços Compartilhados. O colegiado superior da igreja ainda não decidiu se os ingressos de receita serão centralizados num caixa único.

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