Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 142 | Ano 15 | Abr 2010
IDEIAS

Por Solano Nascimento*

No último 14 de março, a Folha de S.Paulo publicou esta manchete: “Empreiteiras criam esquema paralelo para repartir licitações”. Mais de 20 anos antes, no dia 13 de maio de 1987, o mesmo jornal deu destaque na capa para a reportagem “Concorrência da ferrovia Norte-Sul foi uma farsa”. As semelhanças entre as duas reportagens dizem muito sobre a relação de empresas com políticos no Brasil: duas décadas depois, com a conivência de algumas autoridades, empreiteiras seguem fazendo rateio de obras públicas e fraudando licitações. As diferenças entre as duas reportagens dizem muito sobre o jornalismo no país.

A reportagem de 1987 foi uma das primeiras publicadas depois do fim da ditadura militar apontando esquemas de desvios de recursos públicos no governo federal. A primeira frase da reportagem era incisiva: “Foi fraudulenta e determinada por corrupção a concorrência pública, cujos resultados o governo divulgou ontem à noite, para construção da ferrovia Maranhão – Brasília (ou Norte-Sul)”. Para provar isso, o repórter Jânio de Freitas – hoje colunista da mesma Folha –, depois de conseguir os detalhes do rateio que havia sido feito entre empreiteiras, publicou de forma cifrada nos classificados do próprio jornal, cinco dias antes da abertura dos envelopes com as propostas, os nomes dos 18 vencedores dos trechos licitados. A reportagem apresentava outros elementos que mostravam o envolvimento da estatal Valec, responsável pela obra, e do Ministério dos Transportes na fraude.

A reportagem deste ano abriu uma série de matérias publicadas pela Folha a respeito da existência de cartéis de empresas para fraudar licitações. A primeira frase da reportagem diz o seguinte: “Grandes construtoras do Brasil têm um esquema de reparte de contratos que funciona à margem, e a despeito, dos processos públicos de licitação”. A reportagem cita exemplos de obras como as dos metrôs de Salvador, Fortaleza e Distrito Federal, que teriam sido objeto dos acertos entre empreiteiras. No terceiro parágrafo, a reportagem explica que as informações foram retiradas “dos inquéritos de quatro operações realizadas pela Polícia Federal para apurar desvios de dinheiro público”.

A comparação entre as duas reportagens aponta para aquilo que em livro recentemente publicado (Os novos escribas, da Arquipélago Editorial) denominou como o fenômeno do “jornalismo sobre investigações”. A intenção não é criar mais um rótulo para o jornalismo, mas chamar a atenção para algo que vem crescendo nos últimos anos dentro do espaço que antes era ocupado pelo jornalismo investigativo. Como mostrou no livro, a substituição de um pelo outro acarreta prejuízos para a imprensa, mas de forma especial para a sociedade.

O debate sobre jornalismo investigativo com frequência aponta para um questionamento de base. Há um grupo grande de jornalistas e pesquisadores que não gosta da expressão ‘jornalismo investigativo’ e questiona seu uso. “Embora consagrada, acho redundante a expressão ‘jornalismo investigativo’. Ou ‘jornalismo de investigação’. Porque todo o jornalismo pressupõe investigação”, escreveu Ricardo Noblat, ex-diretor de Redação do Correio Braziliense e hoje o blogueiro de política mais famoso do país, em um dos artigos do livro Jornalismo Investigativo (Publisher Brasil, 2003). A argumentação varia um pouco de crítico para crítico, mas a base é a mesma: a expressão “jornalismo investigativo” seria uma redundância, ou um pleonasmo, já que todo o jornalismo é investigativo ou então não é jornalismo.

Trata-se de uma argumentação boa para a utopia, não para a realidade das redações. Vejamos um exemplo fictício: o secretário dos Transportes do Rio Grande do Sul convoca uma entrevista coletiva para falar sobre um novo programa de recuperação de rodovias gaúchas. A entrevista começa às 18h de uma terça-feira. Repórteres dos jornais de Porto Alegre participam da coletiva, fazem algumas perguntas, e retornam com pressa às redações para redigir a matéria que precisa sair no dia seguinte. Por conta da hora, não é possível ligar para prefeitos para saber o que acham do programa, tentar verificar se as empreiteiras contratadas são ligadas a alguém da secretaria nem se o dinheiro previsto indica a possibilidade de superfaturamento.

No dia seguinte, os jornais publicam a matéria cuja base são os dados e as declarações do secretário. É uma matéria jornalística? Sim, é claro, tem informações, foi publicada em um jornal diário, segue as regras básicas do texto jornalístico. É uma matéria investigativa? Claro que não, já que não houve investigação na apuração da reportagem, e sim participação em uma entrevista. Bem, se é possível haver uma matéria jornalística que não é investigativa, é também possível haver matéria investigativa.

Esclarecida a questão da denominação, é preciso definir jornalismo investigativo. Há entre pesquisadores e teóricos algumas divergências, mas não muitas. Grande parte dos que escrevem sobre o tema apresenta variações de três pré-requisitos para considerar uma reportagem investigativa, que foram descritos em um manual publicado em 1983 pela Investigative Reporters and Editors (IRE), entidade dos Estados Unidos que reúne milhares de jornalistas. Para o IRE, uma reportagem só investigativa quando:

1) a investigação é trabalho do repórter;
2) o tema é de relativa importância para o público;
3) o assunto estava sendo escondido do público.

Tenho algumas restrições em relação aos itens 2 e 3. Primeiro, a questão da importância para o público, como diz o próprio pré-requisito, é relativa. Como mensurar se um tema é importante ou não, já que o público é heterogêneo e o que atrai determinado leitor não atrai outro? Em relação ao item 3, o problema é como enquadrar um tema que era completamente desconhecido. Digamos que um repórter decida investigar a razão dos altos índices de determinado tipo de câncer em uma cidade pequena. Descobre que a maior parte das vítimas trabalha em uma mesma indústria e manuseia determinado produto cancerígeno. Mesmo sendo improvável, não é impossível que nem a indústria soubesse que estava provocando câncer em seus funcionários. Ou seja, não era um assunto que estava sendo escondido por ninguém, ainda que a investigação que o apontou tenha sido exemplar.

Por questões como essas, uso uma definição mais sucinta: uma reportagem é investigativa quando tem investigação e essa investigação é feita por um repórter. Assim, para fins comparativos, utilizo a expressão ‘reportagem sobre investigação’ – apresentada pela dupla de pesquisadores norte-americanos Bill Kovach e Tom Rosenstiel – para me referir a reportagens que têm como base investigações feitas por investigadores oficiais, como policiais, promotores, procuradores e auditores.

A partir dessa distinção, apresento no livro o resultado de uma análise das reportagens publicadas pelas três maiores revistas semanais do país – Época, IstoÉ e Veja – em todos os anos de eleições presidenciais desde o fim do regime militar, de 1989 a 2006. Uso alguns filtros para quantificar somente reportagens com denúncias exclusivas e publicadas na editoria de Brasil, a mais nobre das revistas. Para se ter uma ideia dos números encontrados, apresento aqui os dois extremos. Em 1989, 75% das reportagens analisadas eram investigativas, e 25% eram sobre investigações. Em 2006, 30% das reportagens eram investigativas, e 70% sobre investigações. As diferenças entre as duas reportagens da Folha sobre licitações exemplificam o rumo que a imprensa brasileira tomou e que ainda pode – e precisa – ser revertido.

* Jornalista, pesquisador e professor do jornal-laboratório da UnB e doutor em Comunicação. Ganhou 15 prêmios de jornalismo, entre eles, Esso e Vladimir Herzog.

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