Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 143 | Ano 15 | Mai 2010
LUIS FERNANDO VERISSIMO
L. F. VERÍSSIMO

verissimo_mediterranisemo_nos

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Alex Ross escreve sobre música para a revista The New Yorker. Tem um livro publicado, que eu saiba: O Resto é Barulho. Num dos capítulos do livro, ele comenta a enorme influência de Richard Wagner não só na música, mas no teatro, na literatura, nas artes plásticas e na política do seu tempo, uma influência que perdurou depois da sua morte em 1883 e invadiu o século 20. Wagner era o compositor preferido de Hitler e convencionou-se que na mistura de misticismo, espetaculosidade e triunfalismo teutônico das suas óperas está uma das raízes do nazismo – o que não impediu que também influenciasse Theodor Herzl, fundador do sionismo, que, segundo Ross, teria tido a sua visão de um Estado judeu depois de assistir a Tannhauser.

Outro alemão influente, Friederich Nietzsche, foi um admirador fanático de Wagner (e, como ele, considerado uma das vertentes intelectuais do fascismo), mas mudou de ideia e passou a ser um dos seus maiores críticos. Para Nietzsche, Wagner se convencera de que era mais do que um compositor, era um oráculo, “o ventríloquo de Deus”, na sua frase, e era preciso libertar a estética da época daquele pesado domínio. Nietzsche passou a pregar uma reação a Wagner, uma volta da música às suas raízes populares e à simplicidade. “Il faut méditerranizer la musique”, escreveu. Era preciso mediterranizar a música.

A reação já estava acontecendo. Principalmente entre os franceses, velhos ressentidos com a prepotência alemã. Bizet, Faure, Satie, Debussy e outros anti-Wagners “mediterranizaram” a música, cada um a seu modo. Mas fiquei pensando em como a exortação do Nietzsche ainda serve, não necessariamente na música, mas em todas as ocasiões em que a vida parece ficar wagneriana demais. Deveríamos mediterranizarmo-nos todos, o que significaria evitar dramas ruidosos, megalomanias épicas e arrebatamentos místicos e nos concentrarmos nos simples prazeres possíveis. Não seria uma receita para a frivolidade, ou para a insensibilidade com a tragédia e a injustiça, mas uma correta avaliação de prioridades. E pode-se ser mediterrâneo em qualquer lugar da Terra.

O problema é que o exemplo maior de vida mediterrânea é a Itália da doce vida, mas que também é a insensata Itália do Berlusconi. Talvez o ideal devesse ser mediterranizarmo-nos, mas não demais.

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