Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 144 | Ano 15 | Jun 2010
FRAGA

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Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Não é sempre que acontece, e não é com quaisquer pessoas. Entre os dois dessa historinha, foi assim:

Numa calçada da cidade, ele e ela desviavam da multidão de cotovelos quando esbarraram um no outro. Os xingões subiram as gargantas, como lava no cone de vulcões, mas as crateras só sorriram.

Ela deixou de gritar “Não enxerga, seu animal?” e ele não retrucou com “Ah, sai pra lá, sua doida!”. Não dito isso nem aquilo, e ainda emaranhados em sacolas de compras, não gaguejaram várias desculpas formais. Em seguida, sem saber como, se desvencilharam de todos os transeuntes, num rumo deles. Lado a lado, calando coisas que nunca haviam calado com mais ninguém, seguiram em frente, echarpe e manta enroscados pelo vento. A tarde, na dela, prometia – sem nada dizer.

Passo a passo, obedeceram ordem nenhuma, na direção de um bistrô. Enquanto isso, as palavras se aglomeravam nas bocas, e eram engolidas em seco. Dessa maneira não soaram as expressões “Você vem sempre aqui?”, tampouco “O que você faz na vida?”. Surgira um sumidouro de clichês entre eles.

A mesa recebeu o par do jeito que eles vieram, quieta. Uma atenta cerca-viva espichou inúteis gavinhas para ouvir o indizível. Enquanto estudavam os menus, ele não balbuciou “Quem é você, afinal?”, nem ela soprou “Estou tão nervosa!”. Dentro lá neles, dois turbilhões de declarações queriam virar um turbilhão só. Quando os carioquinhas chegaram, notaram que o silêncio ali era eloquente e fumegaram de curiosidade.

Ao redor do lugar, a estação outonava quase de modo exclusivo para o casal. A luz atravessava toldos e o anil exagerava lá no alto. Mas eles nem aí. Os cafés, sabiam, tinham entrado numa fria. Por uma boa meia hora, o tempo parara. As indagações iam e vinham em marés internas, e desaguavam mudas nos sorrisos. Nada de “Você é livre?”, “Está a fim de quê?” ou “Dia lindo, não é?”. Nada além da moldura de fotossíntese na praça.

Nas breves férias dos acervos verborrágicos daqueles dois, quem queria interromper a inexpressão era o subentendido. Já era hora. Por algumas vezes o convite “Topa um motel?” já tinha sido inibido em seus íntimos. Aquela vez não era a vez disso. A tensão era nova, valiosa.

Quando as coisas pareciam que iam se precipitar e tornar o implícito insustentável, um snap. Antes que um “Fumas?” ou um “Será que vai chover?” poluísse o ar, outra linguagem veio em socorro. Os olhos começaram a falar.

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