Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 146 | Ano 15 | Ago 2010
FRAGA

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Em longínquos tempos, cavernosos, as palavras eram primitivas, ainda não tinham sido domesticadas. Havia poucas raças de palavras e sua serventia não dava conta das necessidades de expressão do povo daquela época.

É que as palavras eram como bichos: viviam urrando, rosnando, uivando, ferozes e raivosas, sem controle nenhum, mandíbulas exibindo vocábulos pontiagudos diante de qualquer interlocutor. As palavras mordiam o ar.

Mas a vida não podia continuar assim, selvagem.

Havia eras que o povo queria dizer a que veio mas o máximo de brandura que saía das goelas eram grunhidos guturais. Diálogos viravam carnificina verbal e até monólogos podiam ferir o resmungão.

Algo precisava ser feito, alguém tinha que adestrar o repertório furioso.

As tribos se organizaram e para adestrador apontaram um que falava pouco e nunca soava alterado. O encontro, aliás, só foi bem-sucedido porque ele soube controlar a ferocidade da turba que rugia por palavras suaves.

O homem saiu a campo e reuniu num curral isolado tudo que gritavam e berravam, expressões animalescas, locuções indomáveis. Um alarido assustador que só o homem, bom falante, podia conter.

Em meio às ameaçadoras palavras, havia algumas menos agressivas. Ele as separou, levou-as como pares para uma experiência, e as deixou acasalar oralmente. Não levou muito tempo e as palavras começaram a procriar palavrinhas mansas. E o homem continuou a repetir a mestiçagem, aperfeiçoando novas linhagens da linguagem.

Logo a tribo ganhou famílias de palavras inéditas, que podiam se manifestar calmamente e deram origem às palavras sábias, como as conhecemos. Dessa época surgiram as raças que servem de guarda às outras, como dignidade e responsabilidade.

Outras matilhas de palavras pouco mudaram, continuaram arreganhando os dentes até em conversa: são as que ainda hoje servem para resguardar o espaço de cada um, manter os medos afastados.

As tribos adoraram o palavrório cordial: os termos agora tinham diferentes pelagens e tamanhos, variavam de timbre, e, amestrados de boca em boca, eram capazes de argumentar, explanar e conceituar.

Comparados com as matrizes, eram bichos razoáveis, nem pareciam descendentes das sílabas estúpidas. E os discípulos do homem percorriam outros lugares, tornando as palavras coloquiais, que geravam outras delicadas. Um deles já as treinava para filosofar!

Foi um bom trabalho, a poesia é a prova. Mas a genética é incontrolável.

A mordacidade continua.

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