Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 146 | Ano 15 | Ago 2010
LUIS FERNANDO VERISSIMO
L. F. VERÍSSIMO

Colunista: L. F. Verissimo

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

No outro dia escrevi sobre a campanha em curso na África do Sul pós-apartheid para apagar os vestígios do seu passado colonial, inclusive mudando nomes de lugares públicos que homenageavam colonizadores e seus magnatas e monarcas. Não vai ser uma tarefa fácil, e não apenas porque mexe com a geografia pessoal de cada um. É difícil imaginar que conseguirão desmontar, ou colocar num lugar menos conspícuo, a estátua da rainha Vitória erguida em frente à Biblioteca Pública de Port Elizabeth. A baixinha está lá, bem no centrão da cidade, olhando para o infinito com empáfia imperial. Em Port Elizabeth ficamos hospedados no que seria a Zona Sul, ou a Barra no que ela tem de mais Miami. Mas fomos visitar o Centro, onde éramos os únicos brancos nas suas ruas movimentadas, e onde a figura da rainha, apesar de não ser muito grande, domina os arredores. O desmantelamento de estátuas como as de Lenin e Saddam Hussein significou um rompimento radical com o passado. Desmantelar a estátua da Vitória simbolizaria, talvez, uma emancipação definitiva da sua História para os negros sul-africanos. Não vai acontecer, mas se acontecesse daria para imaginar a rainha dizendo, quando as picaretas começassem a destruí-la, o que disse quando lhe trouxeram a notícia da rebelião dos boxers na China: “We are not amused”. Sua frase mais famosa, cuja tradução aproximada seria “Não estamos achando a menor graça”.

Esse negócio de corrigir o passado se complica quando o que simbolizava uma coisa passa a simbolizar outra. Por exemplo: Penny Lane, em Liverpool, na Inglaterra. O nome original da rua foi em homenagem a James Penny, um rico proprietário de navios negreiros, com tanto prestígio entre seus pares que foi o escalado para defender o tráfego de escravos no Parlamento, quando a prática começou a ser questionada.

No século 18, mais de 1 milhão e meio de negros africanos atravessaram o Atlântico como escravos em navios cujo porto de origem era Liverpool. A cidade chegou a dominar 40% do tráfego mundial de escravos e percentagem quase igual do comércio marítimo em geral, e enriqueceu com isso a ponto de rivalizar com Londres. Tinha toda razão, portanto, em homenagear Mr. Penny e similares. Mas em 2006 o conselho municipal resolveu que os nomes de ruas que lembravam a escravatura deveriam ser substituídos por nomes de abolicionistas, inclusive Penny Lane – que a esta altura era uma das ruas mais famosas do mundo e uma atração turística, graças à música dos Beatles.

A reação foi grande e deixaram que Penny Lane continuasse sendo Penny Lane, sob o azul céu suburbano da letra de Paul McCartney. Afinal, ninguém mais se lembra de James Penny e do comércio de negros africanos, que tanto fizeram por Liverpool. A não ser, talvez, na África.

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