Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 148 | Ano 15 | Out 2010
SAÚDE
ESPECIAL

Elas são inúmeras e dariam quase para compor um minidicionário. Crianças e adolescentes são comumente diagnosticadas como portadoras de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) ou como portadores depressivos. Adultos, além da Depressão, podem sofrer de Síndrome do Pânico ou de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), entre outras. A impressão que se tem é que cada tipo de temperamento ou estilo de vida se encaixa em uma síndrome ou transtorno de comportamento. “O diagnóstico normalmente é feito com base em um agrupamento de sintomas, para o qual se dá um nome. E para cada diagnóstico se cria uma nova droga. Trata-se de uma abordagem mais fenomenológica”, observa Roséli Cabistani, psicanalista membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa) e professora da Faculdade de Educação da Ufrgs na área de psicologia na formação de professores.

Estatísticas revelam que a Depressão, por exemplo, atinge cerca de 25% da população ao longo da vida, o que significa que um quarto das pessoas vão viver algum momento depressivo. “Hoje em dia, uma tristeza passageira ou uma reação de luto pela perda de uma pessoa querida são logo definidas como depressão pelo público. A depressão tem sido relacionada pela mídia a uma reação natural das pessoas à modernidade, às dificuldades socioeconômicas, às mudanças nas relações humanas e trabalhistas, como se o psiquismo de cada um respondesse da mesma maneira às condições adversas da vida”, escreve em seu blog o psiquiatra Leonardo Figueiredo Palmeira, do Rio de Janeiro. Estima-se que 45% da população mundial se enquadrariam em algum diagnóstico de doença mental. “Esse percentual é grande porque inclui até os usuários de tabaco. Esse enquadramento é importante para facilitar pesquisas”, explica o psiquiatra Marcelo Fleck, professor da Faculdade de Medicina da Ufrgs e pesquisador na área de Depressão e Qualidade de Vida.

Para Márcia Fagundes Chaves, neurologista, chefe do Departamento de Neurologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e professora da Faculdade de Medicina da Ufrgs, o aumento do número de diagnósticos está ligado a vários fatores. Um deles é a maior longevidade do ser humano. Como as pessoas estão vivendo mais, aumenta o risco de desenvolverem transtornos mentais típicos da idade mais avançada, como Doença de Alzheimer. Outro fator seria o estresse dos dias atuais, principalmente nos grandes centros urbanos, que atinge não só adultos, mas cada vez mais crianças e adolescentes. E ainda o avanço das pesquisas na área permitiu a identificação de enfermidades que sempre existiram, mas pouco ou quase nada se sabia a respeito.

Mas se uma parcela significativa da população sofre de algum transtorno mental e se para todo transtorno ou síndrome existe um medicamento específico, muita gente vai precisar de remédio? Para Roséli Cabistani, a medicação pode aliviar o sintoma, mas sozinha não cura a doença. “É como medicar para baixar a febre e não ir buscar a causa. O diagnóstico precisa ser feito também através da estrutura do indivíduo e a partir daí se define o tratamento. Apenas tomar remédio é como empurrar a sujeira para debaixo do tapete”, alerta a psicanalista, que acredita estar havendo, de um modo geral, excessos na prescrição de medicamentos. A neurologista Márcia Chaves defende o uso da medicação em caso de sofrimento do paciente, mas concorda que só essa medida não é suficiente. “A psicoterapia é muito importante e o autoconhecimento é uma prática fundamental na superação de alguns quadros”, orienta. (Maricélia Pinheiro)

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