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Nº 151 | Ano 17 | Mar 2011
WEISSHEIMER
MARCO WEISSHEIMER

Por Marco Aurélio Weissheimer

Idealizado como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos e como espaço de crítica à globalização financeira, o Fórum Social Mundial chegou ao seu décimo ano de vida reunindo-se em Dakar, no Senegal. O FSM 2011 acabou encontrando uma nova agenda política com a onda de protestos populares que atingiu a Tunísia, o Egito, o Iêmen, a Líbia e o Bahrein, entre outros países, no início deste ano. O mais significativo de todos, sem dúvida, é o Egito, em função do que o país representa em termos geopolíticos no Oriente Médio. Egito e Arábia Saudita são dois pilares centrais da aliança EUA-Israel na região. Uma mudança de regime político em um desses dois países pode significar um terremoto político.

No Egito, 40% da população vive abaixo da linha da pobreza

Mas desta vez, os malabarismos linguísticos e semânticos não conseguiram esconder a natureza do problema. E a natureza do problema no Egito e em outros países não reside no fundamentalismo islâmico ou algo do gênero. O problema reside em regimes autoritários e corruptos, que governam para um pequeno grupo, deixando milhões de pessoas vivendo na pobreza. O caso do Egito é paradigmático. O professor Mohamed Habib, professor da Unicamp e vice-diretor do Instituto da Cultura Árabe, resume:

“O país tem hoje mais de 40% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza. Ou seja, pessoas vivendo com menos de 2 dólares por dia. Esse problema agravou-se muito nos últimos anos. Há quatro ou cinco décadas, uma libra egípcia valia cerca de 4 dólares. Hoje, 1 dólar compra 6, 7 libras. Houve uma desvalorização assustadora da moeda egípcia. Em tempos passados, o Egito não tinha muitos ricos, mas também não havia miseráveis. Hoje, além dos mais de 40% vivendo abaixo da linha da pobreza, há alguns grandes bilionários, cuja riqueza foi adquirida de modo ilícito por meio da apropriação do poder por um grupo privado bastante pequeno”.

O modelo econômico vigente no Egito e em outros países da região nas últimas duas décadas é o neoliberal, com suas conhecidas práticas de economia aberta (para alguns) e Estado mínimo (para a maioria). Segundo Habib, é um capitalismo mais selvagem do que o praticado na América Latina, com muita corrupção. O empobrecimento que atingiu o país é resultado direto da aplicação desse modelo.

Em 2013, na Capital gaúcha

FSM em Dakar, no Senegal

Foto: Bia Barbosa / divulgação

FSM em Dakar, no Senegal

Foto: Bia Barbosa / divulgação

É uma oportunidade de ouro para o Fórum Social Mundial que buscava, no Senegal, uma revitalização de sua agenda política. Tudo indica que a próxima edição do FSM, em 2013, será realizada em Porto Alegre. A decisão final sai em maio, durante encontro em Paris. Mas já está confirmada para janeiro de 2012 a realização de um grande fórum temático em Porto Alegre, preparatório para a conferência Rio+20, marcada para maio do próximo ano e que discutirá a agenda ambiental mundial. A iniciativa já conta com o apoio do governo do Estado, da prefeitura da capital e de cidades da Região Metropolitana. Algumas atividades preparatórias devem ocorrer já em 2011, recolocando o Rio Grande do Sul no roteiro dos principais debates sociais, políticos, econômicos, culturais e ambientais que desafiam hoje a humanidade.

Outro Oriente Médio é possível?

A aplicação da consigna do FSM aos problemas dessa região coloca a seguinte questão: “Outro Oriente Médio é possível?”. O que está acontecendo no Oriente Médio e norte da África mostra que o castelo das autocracias apoiadas e sustentadas pelos EUA é menos sólido do que parecia. Milhões de jovens, homens e mulheres, estão nas ruas dizendo que é possível, sim. E necessário. Basta que os líderes ocidentais supostamente defensores da democracia deixem de financiar aqueles que não querem que os povos destes países escolham o seu destino. Deixem a democracia entrar no Oriente Médio. Não é essa a promessa universal do Ocidente?

O povo do Egito, da Tunísia, da Líbia e de outros países não foi para a rua por questões religiosas. Foi porque, entre outras coisas, decidiu cobrar as promessas civilizatórias do Ocidente: democracia, liberdade, prosperidade, justiça social. A repetição deste fenômeno em vários países árabes neste início de 2011 sinaliza que podemos estar diante de uma nova tendência mundial, capaz de provocar profundas transformações no tabuleiro geopolítico. Como já se sabe há algum tempo, as previsões de Fukuyama foram atropeladas pela história que, não só não acabou, como se apresenta neste início de década com uma renovada e potencialmente explosiva energia. Podemos estar assistindo ao início de um processo de profundas transformações mundiais.

 

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