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Nº 151 | Ano 17 | Mar 2011
FRAGA

Colunista Fraga

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Os causos foram os seguintes.

Eram 23 pequenos criadores de gado, vizinhos uns dos outros, cada um com seu rebanho, de uma a duas dúzias de cabeças. E como os nomes dos proprietários iam de seu Advanir a seu Zico, os animais traziam nas ancas todo um alfabeto. Mas cada rebanho ficava isolado no seu pequeno pasto.

Um dia os donos se reuniram e discutiram os problemas da criação, que a produção de leite e de carne sofria com os pastos reduzidos. E resolveram locar uma grande área de um latifundiário, e assim soltar os animais naquele imenso verde improdutivo.

Arranjo bom pra todos: pro progresso dos criadores, que assim tinham maiores rendimentos; pro latifundiário, que assim mantinha longe da propriedade o fantasma da reforma agrária; e para os bois e vacas, que assim tinham fartura de grama e espaço.

Aí, com o gado reunido e misturado livremente, começaram os causos com as marcas.

O primeiro aconteceu quando o rapaz encarregado de juntar o gado de cada letra notou, divertido, como se formavam palavras ao acaso na proximidade de várias ancas. “Vaca”, “opa”, “rio”, até “bonde”, que ele nunca vira. O rapaz passava o dia empurrando os bichos pra lá e pra cá, incomodando os bovinos mesmo na hora da ruminação, com o gado deitado. Até verso tentou.

Então um dia apareceu a filha de um dos criadores, com alguma tarefa. E o rapaz se assanhou. Passou a se exibir com palavras bonitas, conduzindo o gado para declarações à mocinha. E ela adorou aquelas tardes de mormaço, mugidos e recados no couro.

Foi assim que ela resolveu bancar a fessora dos filhos dos empregados. Trazia gurias e guris e o rapaz buscava os bichos do seu Inácio, Vilmar, Oswaldo e outros: “Ivo”, “viu”, “a”, “uva”, e daí em diante. O desfile durava instantes, a criançada tinha que ser rápida. E logo todos tinham aprendido a ler com aquela cartilha de quatro patas.

Em pouco tempo a brincadeira evoluiu: enquanto uns guris subiam nas árvores, outros agrupavam animais e seguiam a orientação lá de cima: leva pra lá, traz esse aqui, afasta aquele, enfileira por ali. Numa canseira do gado, tinham inventado as palavras cruzadas no pasto!

Um dia o rapaz ficou sério e ajeitou dez reses, e a moça leu: “casa” “comigo”. Aí ela arrumou três cabeças, e ele leu “sim”.

E teve outros causos, que não cabem aqui.

Só o gado nunca gostou dessa história: afinal, os jogos, as mensagens, as aulas, tudo isso tinha sido escrito com ferro em brasa.

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