Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 152 | Ano 17 | Abr 2011
FRAGA

Fraga

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Todos conhecem o dito popular: “as palavras machucam.” Puizé, não chega a ser dramático, mas bem que podia haver um sud, um sistema único de desentalamentos das goelas.

Obviamente, não são as palavras que doem, é a comunicação atual que fere. Mais exatamente o tom, vociferante e áspero, que, nos mais sensíveis, tem efeitos colaterais desde os tímpanos até a garganta.

Palavras ferinas, farpas verbais, toda essa oralidade de grosso calibre e baixo calão – essas coisas calam fundo, e são difíceis de remover. Daí a necessidade de um sud.

Imagine a quantidade de engasgamentos por emoções cotidianas: discussões no trânsito, rusgas domésticas, irritações funcionais nas empresas, brigas entre desconhecidos na rua. Em cada caso e circunstância, as palavras ficam atravessadas na garganta, você já sentiu isso, sabe como é: elas não saem com simples tapas nas costas.

Em outros momentos, por causa de fortes emoções, sentimentos contidos, como raiva sufocada, as palavras mais duras ficam tão espetadas na traqueia que quase dá pra ver as saliências pontiagudas sob a pele do pescoço.

Esses engasgamentos, tão corriqueiros nos acessos de elevada sensibilidade, poderiam ser eliminados em pouco tempo, em vez de ficar aquele gulp! trancado junto à glote horas e horas ou dias a fio.

Se houvessem clínicas de atendimento específico, as pessoas poderiam ser tratadas prontamente. A começar pela cuidadosa remoção, com pinças delicadas, desta palavra contundente ou daquela expressão espinhosa. Em seguida, em vez de compressas inúteis, a sempre útil compreensão.

Caso seja inviável a criação de um sud, que embora vital para o convívio humano talvez seja mais um ônus para os cofres públicos, poderia recorrer-se a um programa de voluntariado, treinado para aliviar as pessoas traumatizadas por sonoridades incabíveis na garganta.

Voluntários que aprenderiam sobre a gravidade de certo vocabulário e os riscos da pronúncia ofensiva, além dos perigo dos altos brados. Eles poderiam carregar um estojinho de emergência, estariam aptos a interferir nos atritos e desentalar os indefesos e, quem sabe, até autorizados a multar os agressores de ouvidos.

Essa proposta, eu sei, não vai ser levada a sério. É que a população prefere ruminar coisas entaladas do que dialogar e resolver suas diferenças numa boa. É que a epidemia do bate-boca e a do engole sapo já contaminou geral.

Até eu, ao tocar nesse assunto, sinto algo preso.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS