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Nº 153 | Ano 17 | Mai 2011
FRAGA

Fraga

Ilustração: Fraga

Ilustração: Fraga

Os vizinhos, aos gritos, chamaram a polícia. A polícia, aos berros, avisou que já ia.

Sirene a toda, o carro avançou no trânsito barulhento, uma noite como outra qualquer, buzinadas por todos os lados e, acima de tudo, mais sirenes – de ambulâncias, de bombeiros, polícia indo e vindo. O rádio irradiava uma zoeira confusa, mixada à elevada pancadaria de uma FM.

Ao chegar no endereço, os queixosos já aguardavam na portaria do prédio, uma algazarra só. A queixa de várias vozes alteradas era a mesma: algo insuportável no 8º andar, e não adiantava bater na porta para que parassem com aquilo.

Ao entrarem no edifício, os policiais foram recebidos pela estridência do radinho do porteiro a todo volume. E o som ambiente do elevador, em nível mais alto, engoliu o grupo, que ainda bradava inconformado com o vizinho do 82.

À medida que subiam, os sons dos andares distribuíam uma ruidosa polifonia nos tímpanos, só variavam os ritmos, as músicas e os timbres dos moradores.

Chegaram. Cautelosos, os policiais encostaram os ouvidos na porta do apartamento denunciado. Nada. O vozerio dos vizinhos se ergueu mas os policiais fizeram um sinal e puseram um estetoscópio na porta. Sim, havia algo inaceitável ali dentro.

Tocaram a campainha, que não soou. Surpresos e enraivecidos, deram uns murros na porta. Como demoraram a atender, bateram mais forte e gritando juntos:

– É a polícia, abram ou vamos arrombar!

A turma diminuiu os ruídos e um clic suave veio detrás da porta, que abriu e mostrou um casal de meia idade, assustados.

Um dos policiais acusou, empurrando o homem com um dedão:

– Vocês estão atrapalhando a vida dos moradores! Não sabem que não podem fazer silêncio o tempo todo?! Vocês não respeitam o convívio coletivo?

E puxou um talão de multas, enquanto ameaçava:

– Na próxima vez que se excederem no sossego, já sabem: vão passar uma noite na delegacia, pra aprender a se comportar de acordo com as regras do condomínio.

Entregaram o papelzinho e se foram. O casal, amedrontado pela turba mal-encarada e faladora, entrou. Aos poucos, lá de dentro veio um som pauleira, que cresceu até arrancar expressões de satisfação nos vizinhos. Se foi cada um para seu nicho ruidoso.

Na saleta menor, o casal pôs seus desplugados fones de ouvido, pegaram livros e se aquietaram.

Lá fora, ao redor, pela cidade, pelo país, o planeta inteiro, reverberavam infinitos decibéis. Uma noite como qualquer outra.

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