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Nº 153 | Ano 17 | Mai 2011
AMBIENTE
CIÊNCIA

Catástrofe no Japão gera enxurrada de especulações sobre a utilização de novas armas geofísicas e as mudanças climáticas
Catástrofe que atingiu o Japão em março deixou 26 mil mortos

Foto: photoxone/divulgação

Catástrofe que atingiu o Japão em março deixou 26 mil mortos

Foto: photoxone/divulgação

O grande terremoto seguido de tsunami que atingiu a costa nordeste do Japão no dia 11 de março, deixando 26 mil mortos e desaparecidos, foi mesmo um desastre natural? As dúvidas sobre a causa da brutal catástrofe espalharam-se pelo mundo junto com as imagens das ondas gigantescas engolindo cidades inteiras, dos tremores secundários transmitidos ao vivo, das buscas por sobreviventes e das tentativas frustradas de conter o vazamento radioativo na usina de Fukushima, até hoje fora de controle.

Novas armas geofísicas e climáticas já estariam sendo usadas pelas potências militares? Ou teria sido mais uma resposta do planeta ao processo de aquecimento global? Estes questionamentos pipocaram nas redes sociais, nos sites e blogs que costumam abordar estas questões. Assim como aconteceu após o terremoto que devastou a capital do Haiti em janeiro do ano passado, suspeitas recaíram sobre o Haarp, o Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Na estação de pesquisa do Alaska, concluída em 2007 pela BAE Systems, importante fornecedora mundial de equipamentos de inteligência militar, um transmissor de alta frequência ligado a 180 antenas é utilizado para estudar as propriedades do plasma da ionesfera. Participam dos experimentos, cujo objetivo é, segundo o site oficial www.haarp.alaska.edu, desenvolver sistemas de comunicação e vigilância civis e militares, cientistas de universidades, de empresas e do governo dos Estados Unidos.

Jefferson Cardia Simões, glaciologista

Foto: Igor Sperotto

Jefferson Cardia Simões, glaciologista

Foto: Igor Sperotto

INTERNET E EVENTOS EXTREMOS – Desastres naturais sempre ocorreram. O que mudou nos últimos anos foi o acesso às informações, facilitado pela Internet, e a ocorrência de eventos climáticos extremos, e possivelmente mais frequentes devido às mudanças climáticas (incluindo um aquecimento global).

“Hoje sabemos que a maior erupção vulcânica dos últimos 5 mil anos ocorreu em 1815 na Indonésia matando mais de 200 mil pessoas e deixando todo planeta sem verão por dois anos”, informa o glaciologista Jefferson Cardia Simões, 52 anos, coordenador do recém-criado Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (leia box).

Jefferson Cardia Simões não acredita no uso de novas armas climáticas e trata isso como ficçãocientífica: “O custo e a energia envolvidos seriam absolutamente grandes. A grande questão é que estamos com um sistema climático sendo alterado rapidamente, com mudança da composição química da atmosfera, e isso afeta o balanço de energia da atmosfera e o equilíbrio do clima. Junto com isso estamos mais sensíveis a variações naturais do sistema climático pelo uso mais intenso da terra, mais gente no planeta, e estamos sabendo de coisas rapidamente”.

Não há evidências científicas de que os terremotos que atingiram o Japão tenham sido causados pelo aquecimento global ou outras mudanças do clima. No entanto, explica o glaciologista Jefferson Cardia Simões, dados incipientes sugerem que grandes derretimentos dos mantos de gelo, como o da Groelândia, poderiam causar no futuro movimentos no manto terrestre. Já o rápido derretimento do Ártico não teria efeito semelhante. “O gelo que está derretendo no Ártico é mar congelado. Isso não afeta a carga de gelo sobre a crosta terrestre”, ressalta Simões.

IMPACTO NA CROSTA TERRESTRE – Existem alguns estudos apontando impactos da variação dos mantos de gelo (Antártica e Groelândia) em movimentos da crosta terrestre, mas em uma longa escala de tempo, entre 10 mil a 100 mil anos. Na Antártica são 25 milhões de km3 de gelo, equivale ao Brasil coberto por 3 quilômetros de gelo. Se tirar esta carga e colocar no mar, a crosta embaixo da Antártica vai se mover. Na verdade, ela se elevaria em 1 quilômetro. Isto causaria tensões entre as placas tectônicas. No entanto, não temos evidência de que isso esteja ocorrendo em escala pequena de tempo (até centenas de anos).

Utilizando a técnica dos testemunhos de gelo, aplicada pelos pesquisadores do Centro Polar e Climático do Instituto de Geociências da Ufrgs liderados por Jefferson Simões, os cientistas que estudam a história do clima no planeta já têm dados sobre a concentração de dióxido de carbono e metano dos últimos 800 mil anos. “Podemos afirmar que nunca antes tivemos neste período uma concentração tão alta como agora”, informa Simões, que por seu trabalho pioneiro é um dos mais novos integrantes da Academia Brasileira de Ciências (a cerimônia de posse ocorreu no dia 3 de maio).

“A mudança do clima tem que ser vista como um dos tantos estresses em um mundo bastante complexo. Não podemos vê-la de maneira isolada e nem negá-la, como ainda fazem alguns aproveitadores e espertalhões”, pondera Jefferson Simões, um dos autores do 1º Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas que deverá ser divulgado durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) que acontece no Rio de Janeiro de 3 a 6 de junho de 2012.

Laboratório inédito na América Latina

O prédio do Centro Polar e Climático do Instituto de Geociências da Ufrgs, sede do recém-criado Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, começa a ser construído no final do ano ou no início de 2012 no Campus do Vale. “Parte dos recursos necessários já está disponível, mas infelizmente temos um processo burocrático longo”, explica o glaciologista Jefferson Cardia Simões.

Dentro de dois ou três anos teremos um laboratório completo para análise dos testemunhos de gelo. Não só a manutenção no estado sólido, mas derretimento e uma série de técnicas de análises químicas, como cromatografia iônica, espectrometria de massa e outras técnicas que permitem que a gente reconstrua a história ambiental a partir dos testemunhos de gelo. Será o primeiro laboratório completo na América Latina.

Atualmente os testemunhos de gelo são armazenados em um frigorífico da Conab alugado em Porto Alegre e analisados nos Estados Unidos, nos laboratórios da Universidade do Maine, onde Simões é professor associado do Instituto de Mudanças do Clima. Além da parte científica de pesquisa, o Centro Polar e Climático tem também a parte de ensino em todos os níveis, Básico, Médio e Superior.

A função dos pesquisadores liderados por Jefferson Cardia Simões é diagnosticar, monitorar e avaliar o estado da criosfera, a massa de gelo do planeta Terra, fazer cenários, investigações científicas e também aconselhar o governo brasileiro na questão do impacto das mudanças do clima na criosfera, que ocupa 10% do planeta Terra. Mais informações disponíveis no site www.ufrgs.br/antartica

 

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