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Nº 154 | Ano 17 | Jun 2011
JOSÉ ALONSO

José Alonso

Arte: Pedro Alice

Arte: Pedro Alice

Num momento em que se discute a questão da perda de importantes segmentos do setor industrial do RS, é necessário discutir alguns aspectos, por vezes esquecidos, que envolvem essa questão e que, talvez, ajudem a entender melhor o assunto. Deve ser considerado que a mudança de endereço do capital industrial não é recente, ela é tão antiga quanto o sistema que a rege, o capitalismo. As causas desse fenômeno são várias, mas todas elas exercem o mesmo efeito na economia das empresas, a perda de competitividade (custos crescentes) da atividade naqueles lugares que estão sendo abandonados. A história econômica está repleta de ocorrências desse tipo, em especial em algumas regiões de industrialização mais antiga. Nessas áreas, isso pode ocorrer com um segmento da indústria, ou mesmo, com a totalidade do parque industrial.

O impacto na renda e no emprego da região é diferenciado, dependendo da composição da base econômica regional. Se a economia é diversificada é possível que os efeitos negativos da evasão industrial possam ser diluídos ao longo da matriz produtiva regional. Todavia, se a economia é especializada, os efeitos podem ser devastadores no curto prazo, na medida em que provocam uma queda na arrecadação municipal diminuindo a capacidade do governo local de atenuar os efeitos mais perversos que se abatem sobre a comunidade.

Além disso, e principalmente, desemprega centenas e até milhares de trabalhadores deixando-os à deriva do ponto de vista econômico. Muitos desses trabalhadores têm qualificação forjada em quase toda a sua vida profissional nessa atividade, o que significa que, mesmo sendo empregado em outro setor, certamente receberá aí um salário menor do que recebia antes.

A indústria de calçados vem se evadindo do RS há, pelo menos, 20 anos, ainda que tenha sido, desde os anos 1970, beneficiada com generosas políticas públicas, tanto federal quanto estadual, o que lhe assegurou expansão e ganhos extraordinários em determinados períodos. Nos últimos tempos, tem enfrentado concorrência desigual (China) e câmbio desfavorável, levando-a a apressar a transferência de plantas para os estados do Nordeste brasileiro.

Receber benesses públicas durante décadas, relocalizar suas plantas repentinamente (sem aviso prévio), levanta uma questão bem atual. É justo, nesse caso, o Estado e a comunidade local ficar com o “mico” de ter destinado recursos para essas empresas durante tanto tempo e a partir da transferência da planta, cair num vazio econômico? Está na hora, portanto, de estabelecer condições para, nesses casos, dividir os prejuízos imediatos com a empresa que durante tantos anos assegurou as suas margens de lucratividade com a ajuda valiosa de recursos públicos.

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