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Nº 154 | Ano 17 | Jun 2011
PALAVRA DE PROFESSOR

Marcelo Frizon*

Palavra de Professor

Foto: Laycer Tomaz (Agência Câmara)

Foto: Laycer Tomaz (Agência Câmara)

Pouco se falou da presença, na Comissão de Educação da Câmara Federal, do deputado federal mais votado do Brasil em 2010, Francisco Everardo, o Tiririca. Aliás, apenas 219,4 mil votos impediram o palhaço por profissão de bater o recorde do médico Enéas Carneiro, em 2002 eleito com 1,53 milhão de votos. Em dezembro passado, antes de ter sua posse autorizada, Tiririca foi obrigado a se submeter a testes para mostrar que não era analfabeto e conseguiu a aprovação de maneira sofrível.

Não é escandaloso que Tiririca tenha tantos votos, tampouco suas limitações léxicas são um problema para exercício do cargo (deputados, leem e escrevem pouco — quem faz o serviço pesado são os assessores). Também não há o que contrarie o direito de uma pessoa como ele a se candidatar e, muito menos, o de qualquer um votar em alguém com essas características.

Discutir isso não ataca o real problema, o da qualidade do ensino. Segundo o IBGE (em 2003) cerca de 10% da população brasileira é analfabeta total. Os alfabetizados de nível 1 respondem por 30% e conseguem ler apenas uma manchete na capa de um jornal ou revista. Têm dificuldade para ler um parágrafo e identificam pelo número o ônibus que precisam pegar porque têm dificuldade para ler o nome da linha. Os de nível 2, são 35% da população e conseguem ler um ou dois parágrafos de um texto e extrair dele apenas as principais informações. Os de nível 3 correspondem aos 25% restantes, com plena capacidade para ler e escrever. Tiririca é só mais um exemplo de analfabeto funcional (expressão usada para se referir aos alfabetizados de nível 1 e 2), mas isso a imprensa preferiu não comentar, porque muitos outros deputados se enquadrariam na categoria.

No final do século 19, pouco mais de 15% da população brasileira era alfabetizada. Na Argentina, metade da população já sabia ler e escrever. Alguém pode argumentar que isso é natural, afinal a Argentina teve mais de um gramático como presidente. No entanto, educação deveria ser uma prioridade de qualquer governante em qualquer país. Infelizmente, vivemos numa nação que não está realmente preocupada com o assunto, porque se estivesse não teríamos índices de leitura, escrita e raciocínio lógico tão horrorosos, não teríamos uma prova tão malformulada como o Enem (e não se está falando dos problemas que envolveram a aplicação da prova, mas da prova em si). Isso tudo é que é realmente escandaloso, não a eleição do Tiririca. Não precisamos só de pessoas com comprovada capacidade intelectual para comandar o país. Lula é a prova disso, afinal nosso ex-presidente fez um dos melhores governos da história, por mais difícil que seja para alguns admitir isso. Precisamos de pessoas que queiram fazer a mudança. Se Tiririca contribuir para isso, sua eleição terá valido a pena. E, vamos combinar, já estava na hora dos analfabetos funcionais, 65% da população brasileira, terem um representante no Congresso Nacional.

 

*Professor de Literatura dos colégios La Salle Dores e Rainha do Brasil.

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