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Nº 155 | Ano 17 | Jul 2011
EDUCAÇÃO
ENSINO MÉDIO

De acordo com as novas diretrizes curriculares para o Ensino Médio, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), no mês de maio, as escolas públicas e privadas terão mais autonomia em seus currículos para atender sua comunidade ao atuar em quatro eixos básicos: trabalho, cultura, ciência e tecnologia. A questão da autonomia no currículo escolar é levantada por educadores, diante da avalanche de novas disciplinas e conteúdos obrigatórios que chegam às grades curriculares a todo momento na forma de lei e devem ser oferecidas pelas instituições.

“Estou muito cético quanto a esta nova formatação do Ensino Médio. O aluno só aprende quando ele tem uma rotina, uma lógica, e o que temos agora é um caos com cada vez mais disciplinas sendo inseridas”, questiona Dorival Fleck, professor e integrante do Conselho Estadual de Educação (Ceed/RS).

Nos últimos anos, foram inseridas no Ensino Médio as disciplinas de Filosofia, Sociologia, Música e Espanhol. Mais recentemente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou a inclusão de Direitos Humanos, e a Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania, o ensino da Língua Brasileira de Sinais – Libras e do Sistema Braile. Além disso, levantamento feito pelo Observatório da Educação contabiliza mais de 250 projetos que propõem a criação de novas disciplinas ou mudanças no conteúdo do currículo escolar em projetos da Câmara e do Senado. As sugestões passam por ecologia, educação no trânsito, educação financeira, entre outros. “É uma intromissão de quem não deveria estar se intrometendo”, critica Fleck. O professor diz que em todo o mundo as escolas se baseiam em quatro pilares: língua materna, língua estrangeira, matemática e informática. “Estes são os componentes vitais da alfabetização, a partir deles, todas as outras disciplinas são bem absorvidas”, analisa.

Para Cecília Farias, diretora do Sinpro/RS, a questão do espanhol é um bom exemplo: “Em algumas regiões do RS, o estudo de outras línguas estrangeiras teria mais significado para as comunidades, considerando a origem dos imigrantes que vieram de diferentes países”. Para ela, o excesso de demanda oficial restringe o espaço da escola de trabalho nas questões da identidade regional.

A questão curricular foi tema do artigo Interferências externas podem desfigurar currículos, na última edição da Revista Textual (abril, nº 13), em que Beatriz Daudt Fischer, doutora em Educação e professora da Unisinos, destaca que “é no devido contexto, e envolvendo sujeitos diretamente comprometidos, que o currículo deveria merecer estudo criterioso e aprofundado”.

Para ela, falta disponibilidade de tempo para professores e equipe diretiva das escolas discutirem. “As atividades docentes semanais não têm permitido incluir na agenda estudo e discussões coletivas. Para reformular e propor mudanças, é necessário aprofundamento sobre teoria de currículo, pesquisa empírica para melhor conhecer o contexto em que a escola está inserida, além de estudos sobre legislação e políticas que amparam as possíveis reformulações”, avalia a doutora.

Fleck ainda lembra de uma deficiência dos cursos de licenciatura, que não preveem o ensino da estruturação de currículos. “Os professores não estão exercendo essa liberdade também porque não aprendem nas universidades a estruturar cursos”, alerta ele.

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