Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 155 | Ano 17 | Jul 2011
WEISSHEIMER
MARCO WEISSHEIMER

O inverno, além de dias frios e cinzentos, evidencia de modo mais dramático uma realidade que muita gente pode considerar distante do Rio Grande do Sul: a existência de milhares de pessoas vivendo em condições degradantes e desumanas. Ao todo, segundo dados oficiais, são 306,6 mil pessoas sobrevivendo nesta situação aqui no estado. Uma pequena parte delas pode ser vista dormindo nas ruas ou pedindo esmola em calçadas, praças e esquinas de supermercados. Agora, uma parceria entre os governos estadual e federal pretende reduzir esse número praticamente a zero até 2014. Essa é a meta do programa RS Mais Igual, integrado ao plano nacional Brasil Sem Miséria, lançado oficialmente, em Porto Alegre, no dia 30 de junho.

O programa, que deve envolver prefeituras e organizações da sociedade civil, vai atuar em três áreas: transferência de renda, ampliação do acesso aos serviços públicos e geração de oportunidades aos que vivem em condições de vulnerabilidade econômica e social. Um dos desafios desse programa é atingir a população alvo e conseguir integrá- la institucionalmente nas políticas públicas desenhadas para combater a pobreza, um problema particularmente importante no caso de moradores de rua, regulares ou não. A desinformação e a dificuldade de acesso às informações básicas sobre esses programas é um problema comum a praticamente todas essas pessoas vivendo em situação de vulnerabilidade social. Onde ir? O que fazer? Com quem conversar? Essas são algumas das perguntas básicas que, para quem está vivendo direta ou indiretamente na rua, envolvem grande dificuldade.

Já uma rede de programas atuando no Rio Grande do Sul com este fim. Hoje, cerca de 445 mil famílias gaúchas são beneficiadas pelo Bolsa Família e 161 mil idosos e pessoas com deficiência recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Além disso, há 654 Centros de Referência de Assistência Social funcionando, 9,7 mil crianças participam do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) e 4,4 mil agricultores integram o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA). Mas todo esse conjunto de programas ainda é insuficiente para eliminar o problema da pobreza extrema.

Uma das novas políticas envolverá uma complementação de renda, por parte do governo do estado, das famílias beneficiadas pelo Bolsa Família que recebem até R$ 70,00 por pessoa e participam dos cursos de formação, qualificação e escolarização. O objetivo é incentivar a educação e a formação profissional dessas pessoas visando reintegrá-las ou integrá-las a um trabalho. Outra destinará recursos para o fortalecimento das redes de economia solidária, microcrédito e cooperativismo.

Risco de crise alimentar mundial

No final de junho, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e o G-20 agrícola (reunião dos ministros da Agricultura das 20 principais economias do mundo) lançaram alertas e advertências sobre a possibilidade de uma crise alimentar mundial em virtude do expressivo aumento nos preços dos alimentos. Um exemplo disso é o aumento de 50% do preço do trigo no mercado internacional nos últimos 12 meses e a quase duplicação do preço do milho. Nos últimos 12 meses, o indicador de preços do Serviço da ONU para os alimentos e os produtos agrícolas registrou uma alta de quase 40%. Os grãos tiveram uma alta média recorde da ordem de 69%, o preço do açúcar subiu 44%, a carne 20% e os produtos derivados do leite, 11%.

Eleito para assumir a direção-geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, anunciou que o combate à fome no mundo será o principal objetivo da agência nos próximos anos. Segundo dados da FAO, cerca de 925 milhões de pessoas passam fome hoje no mundo. Neste cenário, a cada seis segundos, uma criança morre no planeta devido a problemas relacionados à desnutrição. Para enfrentar esse problema, a FAO conta com um orçamento de aproximadamente US$ 1 bilhão, quantia insuficiente para enfrentar a fome e a pobreza extrema em escala global.

Na conferência da FAO, o ex-secretário geral da ONU e Prêmio Nobel da Paz em 2001, Kofi Annan, criticou duramente a falta de cooperação entre os países para resolver o problema da fome no mundo. Ele acusou as nações mais ricas pela compra de terras em regiões pobres que estaria colocando em risco outros povos. Os efeitos da crise econômico-financeira de 2008 seguem afetando também essas regiões mais pobres. Assim, na segunda década do século 21, a humanidade segue incapaz de impedir que milhões de pessoas morram de fome todos os anos. Ou, pior ainda, indiferente a isso.

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